Espanto

Para falar a verdade, tô com pena do 01. Tão escovadinho, tão penteadinho, sempre de gravatinha e oclinho transparente, até parece um senador. Compenetrado, fala mansa, muito bem comportado. 

Até que a marvada Polícia Federal, que não pára de fuçar a vida alheia, descobre uma fala do bonitinho  dando uma facada comprida no banqueiro falido. “Ou me dá os 134 milhões ou vai tudo por água abaixo” — mais ou menos assim. 

O mafioso foi preso no dia seguinte a esse telefonema. Estava gravado no celular dele. O pedinte não tinha como negar. Uma semana depois, ou pouco mais, o banqueiro foi solto. Com tornozeleira eletrônica, proibido de sair de casa, de falar no telefone e de se encontrar com suspeitos. 

Mas alguém toca a campainha da casa. Quem será? O banqueiro se levanta do sofá, onde assistia aborrecido à televisão, e vai atender. Dá de cara com o engomadinho.

Quase lhe bate com a porta no nariz. “O que esse cara de galocha veio fazer aqui?” — perguntou para si mesmo. E o cara foi entrando. Parecia o dono da casa. 

“Pô, mermão, olha a fria que você me meteu! Por que não me avisou que você tava fu… que eu ia procurar outro investidor”. 

“Pô, sô, ucê num lê jornal, num vê televisão, num fala cum ninguém? O que é cocê faz naquele Congressu? Num sabia que eu tô fu… desdu cumeço du ano, quando ti dei aquelas 60 milhas? Não tenho mais nada, cara, cabou-se tudim”. 

O jumento, quero dizer, o senador pré-candidato à Presidência da República, engole em seco a pouca saliva que lhe resta e responde: 

“Eu vim aqui para acabar a relação…”

O banqueiro também engole em seco:

“Cumé qui é? Eu num tenho nada cocê não. Ocê num é meu típu. O meu típu é aquela loira qui mi deu um pé na bunda. Ocê não, tá sabenu? E ponha-se daqui pra fora cocê mi comprométi!”

Chutado porta a fora, o senador foi chorar as pitangas com os colegas do PL. Consternados, ouviram-no declarar que rompeu as relações com o banqueiro e agora vai atrás da dinheirama que faltava para terminar o filme do papai. Só isso. Nada mais. Condoídos, todos acreditaram. Mas uns só fingiram acreditar. 

Não é possível que o jumento, quero dizer, o improvável senador pré-candidato à Presidência da República tenha ido até a casa do vigarista só pra dizer que não queria mais saber dele. 

Basta olhar para a cara de outro improvável senador chamado à reunião, cenho cerrado, boca miudinha apertada, olhos olhando perdidos para não se sabe onde. Mas já se pode desconfiar. Sérgio Moro foi juiz federal, não é um bobo alegre. Pode ser frouxo, isso sim, como naquela outra reunião, a de governo do desgovernante miliciano antivacina, em abril de 2020. Mas idiota não é. 

Aposto um trago do tal detergente financiador de campanha da extrema direita que o 01 foi lá para combinarem versões e para dizer ao ermão que fique tranquilo que depois da eleição — a dele, claro — tudo será resolvido. O ermão de fé camarada está tão fu… que a única coisa que ainda pode fazer é acreditar em assombração. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado que carrega no bolso um espeto de alho fritim  com rodelas de limão fresquim para espantar os maus espíritos. 

23/5/2026

     

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