No dia 5 de dezembro, quando foi ungido pelo pai, Flávio Bolsonaro fixou o anúncio de sua candidatura no alto de seu perfil no X. De lá para cá, sua campanha está correndo solta nas redes sociais. O presidente Lula não fica para trás. Em público, fala à vontade sobre sua disposição de disputar o quarto mandato, com replique das mensagens. Assim como os demais atos de campanha, a propaganda eleitoral na internet só é oficialmente autorizada a partir de 16 de agosto. Mas os pré-candidatos em todo o país pouco se importam com a lei. Sem fiscalização, fazem lives e impulsionam conteúdos. Uma festa com fartos lucros para os bilionários das bigtechs.
O impulsionamento de mensagens é um mecanismo de compra de audiência. Há pacotes baratos que garantem de tímidas mil a milhares de visualizações dos que navegam pelo Google, Instagram, X, TikTok, Facebook e outras redes. O TSE exige não só que todos os valores gastos com essas mídias constem na prestação de contas das campanhas, como obriga a prévia inscrição dos provedores dos serviços. Mas só a partir de agosto. Até lá, é terra sem lei.
Combinada às regras de campanha antecipada do calendário eleitoral, que ninguém cumpre, a resolução 23.618/2019 do TSE – específica para propaganda, com datas, obrigações e punições -, também tem pouca valia. Trata-se de um texto meio caduco, no qual a baliza para a internet é a legislação de 1997, quando a audiência dos meios digitais ainda era bastante tímida. Se por um lado o TSE tenta avançar na normatização para evitar o mal uso da inteligência artificial e conteúdos sabidamente falsos ou de violência, por outro, parece não enxergar as redes como mídia, ambiente de informação de 70% dos brasileiros.
Especificamente sobre política, pesquisa Datafolha de 9 de março, na qual os entrevistados marcaram mais de uma opção, aponta que as principais fontes de informação são programas jornalísticos de televisão, com 58%, e redes sociais (Facebook, Instagram e X), com 54%. Lulistas preferem a televisão (66%) e bolsonaristas, as redes (61%).
A legislação e as normas do TSE para propaganda eleitoral foram criadas em nome da promoção de equidade entre os candidatos. Causa estranheza, portanto, a ampla permissão para comercialização nos meios digitais frente às restrições draconianas para rádio, televisão e mídia impressa.
Rádio e televisão, que rodam o horário eleitoral gratuíto – que nada tem de grátis porque as empresas são ressarcidas por renúncia fiscal -, são proibidos de veicular qualquer anúncio pago de candidatos em qualquer tempo. Nem mesmo os noticiosos podem citar um candidato sem mencionar os demais concorrentes. Jornais só são autorizados a publicar anúncios de 16 de agosto a 30 de setembro, limitados a 10 propagandas por edição, sendo de ⅛ de página para o formato standard e ¼ para tabloides e revistas. Já na internet, o regime é camarada, beneficiando, por óbvio, os candidatos mais afortunados de partidos que detêm maior naco dos indecentes R$ 4,9 bilhões do fundão eleitoral.
A divisão do fundo para as eleições deste ano só será oficialmente publicada em junho. Mas a escalação dos partidos que mais recebem, proporcional ao números de parlamentares de cada agremiação, permanecerá a mesma. Arredondando os números, na última eleição presidencial, a cota do PL foi de R$ 780 milhões, saltando para R$ 886 milhões em 2024. Ao PT couberam R$ 500 milhões em 2022 e R$ 619 milhões no pleito municipal. O terceiro na lista foi o PSD, com R$ 350 milhões e R$ 450 milhões em cada uma das disputas.
Entre 6 de agosto e 30 de setembro, antes do primeiro turno da eleição presidencial de 2022, o gasto declarado por partidos e candidatos com comerciais e impulsionamento na internet bateu em R$ 168,9 milhões – módicos R$ 3,7 milhões por dia, de acordo com o Observatório de Impulsionamento Eleitoral do Núcleo, grupo especializado em análise digital. Mas o mais provável é que o valor esteja longe do gasto real, pois é prática corrente impulsionar terceiros com recursos não declarados. No curto período do segundo turno, só o Google faturou R$ 28,6 milhões do ex Bolsonaro e R$ 22,7 milhões da campanha de Lula.
Especialistas apostam que o volume de investimento oficial nas redes deve no mínimo dobrar, dado o crescimento da internet na preferência do público. O oficioso não é mensurável.
Para além das fake news e do uso por vezes criminoso da inteligência artificial – causadores de perturbações incorrigíveis -, o impulsionamento promove uma campanha desleal, privilegiando os candidatos com mais recursos. E, de quebra, enriquece ainda mais os bilionários das bigtechs Nada disso combina com democracia.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 5/4/2026.
