Às meninas mortas

Os céus se abriram ontem para receber as meninas mortas. 

Fazia frio na terra. 

Fazia o calor de um abraço infinito no céu. 

As meninas choraram de alegria. 

Debruçadas sobre seus corpos infantis, suas mães, seus pais, amigas e amigos choraram de dor. 

Não chorem mais, mamães. 

Elas estão felizes. Elas riem e saltam no ar como as pétalas das flores que brotam na primavera, como as plumas dos anjos que guardam todas as estações desta vida. 

Elas estão protegidas, elas não sofrem mais, elas não ouvem mais os estrondos da maldade dos seus carrascos. 

Não chorem mais as mamães. 

Não chorem mais os papais. 

As meninas vão dormir. 

Estavam brincando há pouco, estavam aprendendo as lições para a vida nesta Terra. Agora estão nos céus e é chegada a hora de dormir, a abrupta hora que veio no meio do recreio, no meio das aulas em que aprendiam os primeiros passos para viver. 

As meninas dormem. Mas logo vão acordar para outras aulas, outros recreios e novas lições. Agora, dormem. 

O silêncio, o mais contido e profundo silêncio as deve embalar. Não o choro convulsivo dos adultos nesta hora. Guardem sua dor em seus corações. Não as deixem ouvir, não as deixem despertar com os gritos da separação, da revolta, da justa indignação. 

Que se cale toda dor. As meninas serão mais felizes com o amor, que é maior, imensamente maior do que a dor. 

Por isso não chorem mais. Enxuguem seus olhos, enxuguem suas mãos. 

Nosso mundo não sabe ainda o que é o amor. Um dia ele cresce, floresce e vence o ódio no coração dos homens. 

Não é hoje, nem logo mais. Mas um dia será. É por isso e para isso que estamos aqui. 

Agora, a chorar de dor pelas meninas mortas; um dia, a chorar de alegria com elas por toda a eternidade. 

4/3/2026

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