Flávio Bolsonaro, herdeiro sem herança

Um episódio da Segunda Guerra Mundial serve como ilustração para entender a candidatura de Flávio Bolsonaro e sua unção como sucessor do próprio pai. Quando a Alemanha invadiu a Polônia, a Inglaterra e a França declararam guerra a Hitler, mas as forças beligerantes não trocaram um só tiro até a invasão francesa. Esse período de mais de um ano entrou para a história como a “guerra de mentirinha”. A candidatura de Flávio nasce com essa suspeita: é de mentirinha. O próprio “candidato”, como um mau ator, desnudou o véu em menos de 48 horas ao insinuar que poderia desistir da disputa pela Presidência, mas que isso “tinha um preço”.

Pegou mal a declaração, considerada por aliados como um desastre. Para consertar a mancada, o ungido pelo pai afirmou, um dia depois, que sua candidatura era “irreversível”. Acredite quem quiser. Para completar a ópera, se definiu como um “Bolsonaro moderado”

O objetivo da candidatura puro-sangue não é, e nunca foi, unificar o campo da oposição, mas se posicionar no tabuleiro político como uma peça de barganha para tirar o pai da prisão. Daí quase nenhum analista ou político ter levado a sério o anúncio da candidatura, feito sob profundo anticlímax entre os opositores. Nada de declarações de apoio, a não ser uma fala burocrática e fria de Tarcísio jurando lealdade a Bolsonaro. Fora isso, nenhum entusiasmo, apenas um silêncio gelado por parte dos demais presidenciáveis do centro-direita. Nem mesmo no PL, partido de Flávio e de seu pai, houve frenesi. Waldemar Costa Neto, presidente da legenda, limitou-se a dizer “Bolsonaro falou, está falado”.

A recepção nas redes sociais tampouco ajudou: as mensagens negativas superaram as positivas por dez pontos, um dado particularmente simbólico em um ecossistema no qual o bolsonarismo sempre reinou com forte engajamento. A outrora aguerrida e barulhenta banda bolsonarista, que antes dominava o debate digital, parece ter perdido tração. O movimento que enchia as ruas perdeu poder de mobilização ao se reduzir a uma única bandeira: a anistia para Bolsonaro.

Para piorar, dois dias após o lançamento da candidatura, o Datafolha trouxe números devastadores. Flávio aparece como o presidenciável de oposição com pior desempenho em eventual segundo turno, perdendo para Lula por 15 pontos. Em comparação, Tarcísio de Freitas perderia por cinco e Ratinho Jr. por seis, dado que reduz drasticamente o poder de pressão do clã Bolsonaro na tentativa de chantagear o sistema político e o Parlamento. Se o cálculo era gerar medo, o resultado foi o oposto: aumentou o ceticismo no campo da oposição.

Se politicamente o anúncio foi recebido com frieza, no mercado financeiro provocou verdadeira rejeição. A Bolsa caiu fortemente, o dólar disparou; reações que deixam clara a leitura predominante entre investidores: a possibilidade de Flávio Bolsonaro assumir protagonismo nacional representa incerteza, instabilidade e risco fiscal, por facilitar a vitória de Lula. Este, aliás, foi o único a receber bem a possibilidade de enfrentar um adversário com o sobrenome Bolsonaro. Isso se encaixa nos seus planos de recuperar com mais facilidade a dinâmica de polarização que o favoreceu em 2022. A presença do filho de Bolsonaro na cabeça de chapa funciona como um convite ao retorno do eleitor pêndulo, aquele que, segundo o livro Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes, reúne sociais-liberais tradicionalmente ligados ao PSDB, trabalhadores autônomos e empreendedores avessos a radicalismos.

Flávio carrega a rejeição do pai e afugenta exatamente esse eleitorado que foi decisivo nas últimas eleições. Em vez de ampliar o campo oposicionista, restringe-o. Em vez de fortalecer a direita, desorganiza-a. É mais um capítulo de uma sucessão de movimentos políticos desastrosos que a família Bolsonaro tem protagonizado, frequentemente de maneira intempestiva e sem cálculo estratégico. Episódios como o tarifaço e as provocações externas que resultaram em retaliações de Donald Trump já vinham evidenciando essa incapacidade de pensar a política para além da reação imediata.

O pastor Silas Malafaia, figura central no bolsonarismo, resumiu o episódio com precisão desconcertante: “o amadorismo da direita faz a esquerda dar gargalhadas”. Poder-se-ia acrescentar: antigamente se dizia que a esquerda só se unia na cadeia; hoje, a direita nem na cadeia se une. Impossível uni-la por meio de um dedaço de Bolsonaro. Sobretudo porque falta ao escolhido carisma, capacidade de articulação e empatia com o eleitorado, como demonstram as pesquisas.

Enquanto a esquerda observa sorridente, o centro-direita precisa repensar seus passos. Tudo parecia convergir para uma candidatura única, provavelmente a de Tarcísio, vista como a alternativa mais competitiva para enfrentar Lula. Agora, porém, a aposta improvisada em Flávio fragmenta o campo e reduz o potencial de unidade. No mínimo, empurra as incertezas até o final de março, quando o calendário eleitoral verdadeiramente se inicia. O problema não é ter mais de uma candidatura de oposição, até porque, no limite, elas podem se unir no segundo turno.

O xis da questão é ter uma candidatura que, por seu radicalismo, inviabiliza essa unidade e, de quebra, pavimenta a vitória de Lula ao empurrar para seus braços o eleitorado de centro. Ademais, fica a incógnita: na hipótese mais do que provável do Congresso não ceder à chantagem e não aprovar a anistia ao seu pai, Flávio manterá uma espécie de “anticandidatura” apenas para preservar o espólio do bolsonarismo?

É exatamente esse o risco apontado por lideranças evangélicas ao recorrerem ao Evangelho de Mateus: “todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda casa dividida contra si mesma não subsistirá”. Assim como Roboão, filho de Salomão, cuja ascensão precipitou a divisão do reino de Israel, Flávio corre o risco de ser o que leva o bolsonarismo à ruptura.

O paradoxo é que essa implosão ocorre em um momento em que a avaliação do governo Lula, segundo o próprio Datafolha, estagnou e apresenta sinais de desgaste. A parcela que considera o governo “ruim ou péssimo” supera em cinco pontos a que o avalia como “ótimo ou bom”, revelando um ambiente ideal para o surgimento de uma alternativa de centro-direita competitiva.

Somados à rejeição intensa a um nome puro-sangue do bolsonarismo, esses dados indicam a existência de um nicho eleitoral significativo, refratário à polarização e ávido por uma alternativa moderada. O que se coloca, portanto, é uma questão estratégica: haverá maturidade no centro-direita para ofertar essa alternativa, ou a coalizão ficará prisioneira da chantagem representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro?

A resposta a essa pergunta definirá, em grande medida, o rumo da disputa de 2026. O movimento de Flávio – improvisado, fraco nas pesquisas, mal recebido pelo mercado e divisivo entre aliados – coloca o bolsonarismo diante do risco real de autoaniquilação política. Em vez de expandir suas fronteiras, o clã parece empenhado em reduzi-las. Se persistirem nesse caminho de jogadas curtas e improvisadas, poderão, ironicamente, entregar a Lula sua melhor chance de vitória antecipada. A direita, fragmentada, vê seu principal polo implodir por dentro. Flávio Bolsonaro, longe de herdeiro capaz de consolidar um legado, pode se revelar, ironicamente, o agente involuntário da sua ruína.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/12/2025. 

Um comentário para “Flávio Bolsonaro, herdeiro sem herança”

  1. Flávio Bolsonaro: um herdeiro sem projeto para o Brasil

    O cenário político brasileiro caminha para mais uma disputa presidencial, e o nome de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) surge como provável candidato do Partido Liberal. Contudo, sua candidatura parece frágil e pouco consistente, marcada mais pela herança política do pai, Jair Bolsonaro, do que por realizações próprias.
    Flávio, apelidado de “Rachadinha” pela crítica política, carrega uma reputação comprometida. Denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro sob acusação de liderar esquema de desvio de salários de funcionários da Assembleia Legislativa, teria utilizado sua antiga loja de chocolates para lavar recursos ilícitos. Esse episódio, ainda vivo na memória coletiva, mina qualquer tentativa de consolidar uma imagem de seriedade e compromisso público.
    No campo legislativo, sua trajetória é marcada por proposições pontuais, sem relevância estrutural para o Brasil ou para o Rio de Janeiro. Não há registro de políticas transformadoras ou projetos de impacto nacional que possam credenciá-lo como líder capaz de enfrentar os desafios do país. Sua atuação parlamentar se limita a iniciativas alinhadas ao grupo político que representa, sem demonstrar visão estratégica ou compromisso com a sociedade.
    A única credencial que sustenta sua candidatura é ser herdeiro político de Jair Bolsonaro, que, apesar de manter uma base fiel, não alcança a maioria do eleitorado nacional. Se Flávio for considerado o adversário mais forte contra o presidente Lula, até mesmo eleitores sem simpatia pelo atual presidente podem ser levados a acreditar em uma vitória de Lula já no primeiro turno.
    O Brasil precisa de líderes com trajetória profissional sólida, experiência administrativa e propostas concretas para enfrentar problemas estruturais como desigualdade, educação, saúde e desenvolvimento econômico. Flávio Bolsonaro, até aqui, não apresenta nenhum desses atributos. Sua candidatura, portanto, revela-se como mais um exercício de poder familiar, sem projeto real para o país.
    Júlio César Cardoso
    Servidor federal aposentado
    Balneário Camboriú-SC

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