Uma das perguntas que mais tenho ouvido de amigos e familiares, nestes dias de Festas, é: “Qual o objetivo?”.
Querem entender o que deseja a imprensa quando traz notícias de que o ministro Alexandre de Moraes pode ter pressionado o Banco Central em favor do Banco Master. A resposta não é complicada. O que a imprensa quer é trazer ao público aquilo que circula nos corredores do poder.
Embutida nessa pergunta — “qual o objetivo?” — existe a presunção de que estamos a serviço de um lado na briga política. Não é isso que nos dá gana um dia após o outro. Francamente, o tesão no trabalho está em ser o primeiro a trazer algo a público. Ao público. O barato está em conseguir explicar com mais clareza como o Brasil funciona, ou o mundo. Em ser útil — e ser lido por ser útil. Pelo ângulo pessoal, essa é a motivação de cada um de nós. Mas, na engrenagem da democracia, a imprensa cumpre um papel fundamental. Ela não julga, não condena. Alerta. Revela à sociedade aquilo que quem tem poder deseja manter em segredo. O jornalismo existe para ligar a sirene e apontar: tem problema ali. É preciso investigar formalmente.
O jornalismo não tem as ferramentas necessárias à investigação pelo Estado — quebra de sigilos, mandados de busca e tudo o mais. As ferramentas que cada jornalista tem à disposição são aquelas dadas pelas Constituições democráticas a cada cidadão. O direito de perguntar e ouvir respostas. De circular nos palácios dos três Poderes e ver o que acontece. Aí contar para todo mundo. Cidadãos têm de trabalhar, não podem gastar manhãs, tardes, noites ou mesmo madrugadas dentro de palácios, prestando testemunho do que faz o poder. Tentando entender as relações, os acordos. As trapaças. É por isso que democracias precisam de jornalismo. Democracias não se sustentam sem que alguém faça esse serviço. É o papel da imprensa.
É da natureza do poder que poderosos se sintam tentados a ganhar algo com as possibilidades abertas pelo próprio nome ou assinatura. A imprensa é um instrumento da sociedade para revelar quando ocorre. Às vezes, a imprensa levanta provas. Outras, não — as provas vêm após o alerta, com a investigação de procuradores ou policiais.
A imprensa noticiou, ativamente, a Operação Lava-Jato. Os desvios bilionários da Petrobras não foram ilusão. Roubou-se. Muito. A mesma imprensa voltou seu olhar ao juiz Sergio Moro quando conversas vazadas tornaram claro que ele mantivera relações promíscuas com os procuradores. Juiz não tem de ajudar parte num processo. Os mesmos jornalistas levantaram a corrupção da família Bolsonaro. Denunciaram o ataque de Bolsonaro à sociedade na pandemia. Demonstraram como foi a tentativa de golpe militar. E, agora, revelam que dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão promiscuamente próximos do caso do Banco Master. Isso é um problema. Um problema gigante. Precisam, no mínimo, ser afastados de qualquer julgamento envolvendo a dissolução do banco.
A máquina de ataque à imprensa de parte da militância da esquerda estava dormente desde a eleição de Jair Bolsonaro. Foi religada contra Malu Gaspar, colunista do Globo. Não tinha como falar algo perante a revelação de que a mulher de Moraes assinou um contrato sem objetivo específico que lhe valeria ao redor de R$ 130 milhões com o Master. Então resolveu dar o bote quando ela revelou que pessoas próximas viram o ministro pressionar o BC.
A informação que ela trouxe foi confirmada por Eliane Cantanhêde e David Friedlander, no Estado de S. Paulo, e por Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. De certa forma, foi confirmada também por Daniela Lima, do UOL. Daniela, porém, diz que, de acordo com suas fontes, não houve pressão. Apenas menção. Jogo jogado. Fontes distintas podem ter percepções diferentes. Pois cinco dos jornalistas mais experientes da cobertura de política e economia no Brasil ouviram versões quase iguais da mesma história. Dos cinco, quatro ouviram que Moraes cruzou a linha. E muito. Segundo Mônica, a pressão não foi apenas contra o BC, mas também contra a Polícia Federal.
Parece ser um sinal de como será a cobertura da eleição de 2026. Aqui, nas redações, estaremos sob ataque contínuo da máquina bolsonarista e da parte mais agressiva da esquerda. A esquerda não gosta de ser comparada. Mas os métodos são iguais. A falta de compreensão de que uma imprensa livre estará sempre na cola de quem tem poder, e de que isso é desejável,
(*) Nota do Administrador: Este artigo de Pedro Doria foi publicado em O Globo, em 30/12/2025. (https://oglobo.globo.com/opiniao/pedro-doria/coluna/2025/12/e-um-erro-achar-que-a-imprensa-esta-de-um-lado-na-briga-politica.ghtml ) Não tive autorização dele, mas tenho a certeza de que não ficaria incomodada pela reprodução. (S. V.)

Essa história de achar que coleguinhas são seres acima de quaisquer suspeitas me irrita muito. Jornalistas que conhecem bem a engrenagem das empresas de Midia sabem que isso é uma falácia.
O comentário abaixo é de Luiz Alberto, E-mail: luizfrancaofotografo@gmail.com, http://Luizfrancafotografias.blogspot.com. Por algum motivo que não consigo compreender, ele não foi publicado, apesar de eu ter autorizado. Por isso estou reenviando. (Sérgio Vaz)
O texto de Pedro Doria é a peça de resistência de uma classe que se sente acuada. É a defesa corporativa do jornalismo como “quarto poder”, mas que, no contexto do Caso Master, ignora a variável que discutimos: o mercado como patrocinador da narrativa.
Doria utiliza a estratégia do “Equilíbrio Falso” (Bothsideism). Ele lista a Lava-Jato, Moro, Bolsonaro e Moraes para dizer: “Vejam, batemos em todos, logo somos isentos”. Mas, se olharmos com a lente do nosso “liquidificador”, a análise muda.
1. O Problema da “Confirmação de Fontes”
Doria argumenta que se Malu Gaspar, Eliane Cantanhêde e Mônica Bergamo ouviram a mesma coisa, a informação é sólida. No entanto, no mundo do lobby financeiro e das “guerras fratricidas” da Faria Lima:
* Fontes Únicas, Redações Múltiplas: Se um grupo de diretores do Banco Central (ligados à ala que quer favorecer os “bancões”) decide “vazar” a mesma história para cinco jornalistas influentes, eles não estão confirmando um fato; estão coordenando um vazamento.
* No jornalismo, cinco pessoas ouvindo a mesma mentira (ou meia-verdade) da mesma fonte interessada não transforma a história em verdade, transforma-a em propaganda.
2. A “Sirene” que Toca Seletivamente
Pedro Doria diz que o papel da imprensa é “ligar a sirene”. Onde estava a sirene do Grupo Globo e do Estadão quando o Banco Master investia R$ 100 milhões em publicidade enquanto o rombo de R$ 17 bilhões (ou R$ 40 bi) crescia sob o nariz do BC?
* O jornalismo só ligou a sirene quando o processo chegou ao STF e ameaçou os interesses de quem está “limpando” os ativos do banco.
* Atacar Moraes e Toffoli por “promiscuidade” é legítimo se houver prova, mas usar isso para desviar o foco da fraude contábil e do favorecimento ao BTG é, no mínimo, conveniente para o mercado financeiro.
3. A Comparação com a Lava-Jato
Doria menciona a Lava-Jato, mas esquece a lição principal: o uso de vazamentos seletivos para destruir alvos políticos antes do julgamento.
* Ao insistir no “contrato de R$ 130 milhões” sem apresentar o documento, a imprensa está fazendo exatamente o que Moro fazia: condenação por manchete.
* A “esquerda” que ele diz estar atacando Malu Gaspar está, na verdade, apontando que pela primeira vez o “método Lava-Jato” encontrou um magistrado (Moraes) que reage com a mesma força.
O Real Conflito de 31 de Dezembro
| Argumento de Pedro Doria | O que o “Liquidificador” revela |
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| “A imprensa revela segredos do poder.” | A imprensa está sendo usada por uma ala do poder (BC/Bancões) contra outra (STF). |
| “Fontes diferentes confirmaram a pressão.” | As fontes podem ser as mesmas figuras do BC que assinaram a venda de ativos ao BTG. |
| “A imprensa não julga, apenas alerta.” | No Caso Master, a “manchete de alerta” serviu para paralisar a reação de Moraes e Toffoli. |
Conclusão: O “Tesão” vs. O Lucro
Doria fala em “tesão de ser o primeiro a trazer a notícia”. Mas, no Caso Master, o “tesão” jornalístico parece estar alinhado ao lucro de quem quer a liquidação rápida e sem perguntas. Se a imprensa quer ser útil à democracia, como diz Doria, ela deveria estar perguntando: “Quem ficou com os R$ 12,2 bilhões que o BRB pagou por ativos inexistentes?”
Enquanto a discussão for sobre “quem pressionou quem no cafezinho”, ninguém pergunta sobre o destino do dinheiro. O artigo de Doria é a prova de que a imprensa decidiu que o escândalo político (Moraes) é mais vendável do que o escândalo financeiro (BTG/Master/BC).
Hoje é 31 de dezembro. Enquanto os jornalistas celebram sua “independência” em artigos, a Polícia Federal está com os depoimentos de Ailton de Aquino e Renato Gomes na mão. ?
O dia 31 de dezembro de 2025 marca o momento em que a “poesia” do jornalismo declaratório de Pedro Doria encontra a “prosa” dura dos depoimentos da Polícia Federal. Se a imprensa vive de versões, a PF vive de contradições materiais.
Aqui está a análise de como os depoimentos técnicos de Ailton de Aquino (Fiscalização) e Renato Gomes (Organização/Resolução) podem implodir a narrativa das “fontes de corredor” citadas pelos cinco jornalistas:
1. O Documento ao TCU: A “Bomba” que Ninguém Viu
Enquanto os jornalistas focavam no “ouvi dizer que Moraes pressionou”, Ailton de Aquino assinou um documento oficial ao TCU listando fraudes concretas, como a venda de ativos inexistentes ao BRB.
* A Contradição: Se houve “pressão” de Moraes para salvar o banco em julho, por que o próprio Aquino (suposto aliado do Master) continuou documentando as fraudes que levaram à liquidação?
* O Fato: O depoimento técnico de Aquino à PF hoje deve focar no rastreio do dinheiro. Se ele provar que a liquidação foi baseada em dados contábeis incontestáveis (os R$ 17 bi de rombo), a história da “pressão de café” vira apenas fofoca de bastidor irrelevante para o processo.
2. Renato Gomes e a “Porta Giratória”
Renato Gomes, o queridinho da mídia liberal e braço direito de Campos Neto, terá que explicar à PF o cronograma da liquidação.
* A Pergunta da PF: “Por que ativos saudáveis do Master foram cedidos ao BTG Pactual antes da decretação oficial da liquidação?”
* Se Gomes não conseguir justificar tecnicamente esse favorecimento, a narrativa da imprensa de que ele é o “herói técnico” contra a “promiscuidade do STF” desmorona. Ele deixará de ser o “informante ético” das redações para se tornar um investigado por favorecimento de mercado.
3. O Confronto das “Fontes”
Pedro Doria diz que quatro jornalistas ouviram que “Moraes cruzou a linha”. A PF agora tem o poder de perguntar a esses diretores do BC: “Vocês confirmam, sob pena de falso testemunho, que o Ministro exigiu a interrupção da fiscalização?”
* O Recuo Provável: No “cafezinho” com o jornalismo, fala-se tudo. Diante de uma delegada da PF, com o cargo em risco, esses diretores tendem a dizer o que Daniela Lima (UOL) ouviu: que houve apenas “menção” ou “consulta de status”.
* O Resultado: A PF vai expor que a imprensa foi usada como caixa de ressonância para uma ala do BC que queria queimar Moraes e Toffoli para evitar que alguém olhasse para os lucros dos bancões na quebra do Master.
O “Liquidificador” da Virada de Ano
| Narrativa da Imprensa (Doria/Malu) | Realidade Técnica da PF (31/12) |
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| Moraes pressionou para salvar Vorcaro. | O BC seguiu investigando e liquidou o banco com apoio de Moraes (após as provas). |
| Renato Gomes é o técnico imparcial. | Investigação sobre o destino dos ativos que foram para o BTG. |
| O problema é a “promiscuidade” no STF. | O problema são os R$ 12,2 bilhões de dinheiro público do BRB que sumiram. |
Conclusão: A Sirene Tocou para os Jornalistas
Ao contrário do que diz Pedro Doria, a “sirene” do jornalismo não está alertando a sociedade; ela está tentando abafar o som das impressoras da PF que estão cuspindo os nomes dos reais beneficiários da fraude.
O “objetivo” que os amigos de Doria perguntam é simples: manter o Caso Master como uma crise política no STF para que ele nunca se torne uma crise de sistema financeiro na Faria Lima.