Tiros

Onde o tiro é livre, as armas e as balas também, era uma questão de tempo e oportunidade que o maior  incentivador da violência política nos Estados Unidos fosse alvo de um atirador. 

Era para estar morto — como ele mesmo disse. Mas, como escapou por menos de um centímetro da bala de seu atirador amador, fala em milagre. Isso o coloca um andar acima dos pobres mortais. Donald Trump agora é uma espécie de avatar, um enviado salvo por Deus para salvar a América. 

Biden, que anda trocando os nomes e as pernas e pegou Covid pela segunda vez, tem pela frente uma missão impossível, no estilo Tom Cruise. Se conseguir dar duas piruetas no ar e cair em pé, leva a taça. 

Se pensar bem antes da performance, entrega o abacaxi para Kamala Harris, que saberá cortá-lo em boas fatias a partir de uma vantagem de três pontos sobre Trump quando é citada nas pesquisas eleitorais. Biden não consegue diminuir a desvantagem de um, dois e até três pontos negativos que carrega há meses. 

Mas ele fez bem seu papel de tiozão, ao ligar para Trump logo após o atentado e para a viúva do bombeiro-herói morto pelo atirador. Quando ouviu os tiros, o bombeiro se jogou sobre a mulher e as duas filhas pequenas para não serem atingidas.

Trump não ligou para a viúva. Se o fez, foi depois de Biden. E aí perdeu, né mané? 

Sobre o atirador, sabe-se que era um republicano de carteirinha, com  20 anos de idade e passado de bullying na escola, introspectivo e gentil. Numa sociedade doente como a norte-americana, virtudes não resistem a uma cartucheira cheia de balas e um fuzil AR-15 para descarregar seus traumas em cima dos outros. 

Sobre a segurança do evento, sabe-se um pouco mais: pelo menos dois policiais locais viram o atirador em cima do telhado do que parece ser, pelas imagens, um galpão para guardar materiais. Um deu uma mãozinha para o outro subir ao telhado. Ao vê-lo, o atirador voltou-se com seu fuzil para ele, que se assustou, perdeu o equilíbrio e caiu por cima do companheiro. 

Uma trapalhada do tipo Três Patetas, reduzidos a dois. E que deve ter tirado a concentração do atirador sobre o alvo que tinha em sua mira. A trapalhada salvou Trump da morte por um triz. Não foi o dedo de Deus. 

A mesma trapalhada pode ter matado o bombeiro e ferido gravemente outras duas pessoas. Também não foi o dedo de Deus. 

Mas clamar pelo divino nessas horas funciona entre os pobres mortais. 

E o que faziam os snipers aboletados sobre a estrutura do palco em que Trump discursava? Deviam estar olhando as nuvens, porque os dois policiais no chão, em patrulha de rotina na área, já tinham visto o atirador no telhado, que fica a coisa de 100 metros de distância do palco. E até pessoas que chegavam para o comício viram alguém deitado se ajeitando no telhado para fazer alguma coisa e alertaram policiais próximos. 

Ao que parece, nenhum dos patrulheiros tinha rádio-comunicador com os snipers — um erro primário em qualquer esquema de segurança. 

A maior democracia do mundo dá  mostras de ser igual ou pior, na forma e no conteúdo, que repúblicas bananeiras vizinhas. 

Pesquisa da Morning Consult divulgada na quarta-feira anota que 12% dos republicanos acreditam que foi uma farsa, proporção que sobe para 33% entre os democratas, enquanto 38% (!) dos entrevistados atribuem a Trump a violência política que se instalou no país em seu (des)governo. 

A lamentar que o bombeiro não tenha tido a sorte do magnata. O bombeiro fará falta a sua família. Trump não faria falta nenhuma, nem aos EUA nem ao mundo. 

Nelson Merlin  é jornalista aposentado, chocado e alarmado, por terem os EUA um arsenal nuclear suficiente para destruir quantas vezes quiserem o planeta que habitamos. Assim como Rússia, China, Índia, Paquistão, UK, França e, logo mais, a Coréia do Norte…

18/7/2024

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