Que virada!

Eu estava torcendo por Michelle Obama entrar na corrida pela presidência dos EUA para virar a mesa lá, e a mesa que virou foi do outro lado do Atlântico. Minha pontaria não anda muito boa… 

É certo que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas eu gosto da simbologia. Enquanto na grande nação do Norte se joga o futuro da democracia no mundo, entre um octogenário quase caduco e um escroque internacional, do outro lado do Atlântico a esquerda, a centro direita e a extrema direita nazifascista disputam o comando do continente.

Nesse cenário de apocalipse, numa única semana a direita sofreu uma paulada histórica no Reino Unido, outra no Irã e outra ainda na França, onde menos se esperava, tudo em carreirinha! 

E por aqui, na mesma semana, sobrou paulada também para a extrema-direita tupiniquim, reunida no mesmo fim de semana num convescote infantil em Santa Catarina para puxar o saco dos chefes Jair e Javier. Não se sabe se riram ou se choraram, mas fingiram que não era com eles. Esta cacetada não veio do eleitorado, mas da Polícia Federal, de onde outra paulada está para descer em breve no mesmo lombo do tal Jair, relativa ao golpe furado do 8/1. A de que se trata agora é por peculato, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, devido à apropriação indébita das jóias sauditas afanadas do acervo presidencial pelo “honesto”, para venda em Miami pela módica quantia de R$ 6,8 milhões. 

Não sei se a direita em outras partes do mundo também é amiga do alheio. Por aqui, ela o é desde o Brasil colonial, período em que os portugueses fizeram a festa juntamente com as elites locais. E daí a moda estendeu-se pelo Império e a República, em cujos primórdios o notável senador Ruy Barbosa, numa das duas vezes em que foi candidato à Presidência da República, perfilou-se horrorizado e declarou: “Ou instauramos a moralidade, ou nos locupletamos todos”. A escolha geral foi pela segunda opção. Ruy perdeu as duas eleições! 

Também não sei se a rebordosa européia terá influência na campanha dos EUA. Torço para que tenha, mas fiquei sabendo que mudar de candidato a esta altura do campeonato, com todas as decisões internas do Partido Democrata já tomadas e em execução, não é coisa simples. A última vez que isso aconteceu foi com Lyndon Johnson, que caiu fora em 1968 e quem levou foi o republicano Richard Nixon, chamado à época de ricky-tricky-dickson, ou coisa assim, por suas mentiras deslavadas. Fez escola…   

O que sei é que a Terra não é plana e este mundo dá voltas. 

Mas nem tudo são rosas. A vitória da esquerda na França não lhe dá maioria para governar. Tampouco a centro-direita de Macron e a extrema-direita de Le Pen. A esquerda terá de governar com o grupo de Macron, e a composição de um governo desses é uma coisa que só os tarólogos mais experientes podem dizer se e como vai acontecer. 

No Reino Unido, após 14 anos de jejum, o Partido Trabalhista já está governando, e seu primeiro movimento dá o tom: o premiê Keir Starmer revogou decreto do anterior que mandava de volta para a África (um absurdo!) os imigrantes que de lá vieram. O próximo deve ser a extinção definitiva do malfadado Brexit, que os britânicos de direita fizeram para afundar a ilha do Atlântico Norte até o pescoço. 

No Irã, o novo presidente bateu cabeça para o aiatolá, mas já começou sua revolução prometendo pôr em prática logo mais uma promessa de campanha permitindo que as mulheres dirijam automóveis e se vistam como quiserem! Isso, lá, equivale a um liberou geral. Também quer revirar a mesa na questão nuclear e pôr fim às sanções ocidentais. Depois vem mais. Ou menos. A ver. 

Não posso encerrar estas mal traçadas sem lembrar que o México, cinco semanas antes desta, iniciou a rebordosa mundial elegendo sua primeira mulher à presidência da República. E é uma mulher de esquerda! 

Que viva México!

Nelson Merlin é jornalista aposentado, festivo e eufórico. 

10/7/2024

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