Atriz Atroz!

Nyedja Cristina – esse é o nome da atriz que protagonizou uma das cenas mais grotescas jamais vistas em palcos e, principalmente, no recinto do Senado.

Essa mulher foi chamada para participar de uma suposta audiência pública no Senado pra representar um feto. Oi? Que loucura é essa? Qual é o objetivo de representar um feto numa encenação que expõe o ridículo e o insano diante de uma platéia exclusivamente bolsonarista que acha que mulher estuprada que faz aborto merece pena maior do que o estuprador?

Não dá pra acreditar que um bando de parlamentares que deveriam estar mais preocupados com o bem-estar da população esteja batendo na tecla de um assunto que sequer lhes diz respeito. O corpo da mulher pertence, única e exclusivamente, a ela e não a esses falsos moralistas.

Sabemos que esse “moralismo” todo da cambada evangélica, ops, bancada evangélica, tem como único intento ganhar votos de fiéis contrários ao aborto e que até umas parlamentares abortistas no passado votaram hoje a favor desse projeto descabido.

Uma das deputadas que assina a PL do Aborto é Carla Zambelli, do PL, a ex-ativista e mais recentemente pistoleira que perseguiu opositor nas ruas com arma em punho. A mesma que marchou ao lado de Sara Winter em prol das causas femininas – depois  as duas quebraram o pau feio porque a tal Sara publicou um vídeo contando que a parlamentar teria feito um aborto intencional em 2012. Rolou até processo, mas logo ficaram de bem, vestiram a camisa verde-amarela e saíram por aí espalhando fake news  pra agradar ao chefinho, o mesmo que sugeriu a uma de suas ex-mulheres que abortasse o rebento. (Teria sido uma premonição?)

Mas, voltando à vaca fria, eu ainda tô de cara com o vídeo da atriz atroz berrando feito louca (como se um feto berrasse) e aqueles paspalhos olhando pra ela como se estivessem assistindo a um clássico de Shakespeare. Ela, travestida de feto, dizia aos berros: “Me deixem nascer, por favor. Se vocês não me quiserem conseguirei outros pais. Eu prometo, eles me adotarão com muita alegria. Tem tanta gente que sonha e espera um bebê pra completar a sua existência”.

Não se sabe se a atriz foi paga com dinheiro público para fazer esse papelão ou se foi de livre e espontânea vontade para agradar ao mentor da audiência, senador Eduardo Girão (e põe girão nisso), mas se a peça encenada de fato representasse a vida real, as palavras desse feto seriam bem diferentes. Ele estaria questionando por que esses políticos se preocupam tanto com o fato de ele não nascer mas não se preocupam em dar uma vida digna a uma criança que, pra sobreviver, vai acabar se alimentando de lixo ou pedindo esmolas num semáforo e dormindo na rua. Pois é isso o que normalmente acontece nas classes sociais menos favorecidas quando a gravidez é indesejada, seja ela por falta de condições financeiras ou por ser resultado de estupro.

E ela continuou falando, berrando e pagando mico por intermináveis minutos sob os olhares abestalhados dos senadores e deputados presentes nessa “audiência pública” de público bem específico.

O dono da casa não gostou nem um pouquinho. Rodrigo Pacheco ficou irritado com a patética exibição e criticou o senador Eduardo Girão por ter promovido um debate sem debatedores. O outro lado ficou de fora.

A senadora Soraya Thronicke também ficou revoltada com essa patacoada. Derrubou a lona do circo com estas palavras: “Quero ver ela encenando a filha, a neta, a mãe, a avó, a esposa de um parlamentar sendo estuprada (sic). Se encenaram um homicídio aqui ontem, que encenem um estupro”.

Mas, como tem crente pra tudo nesta vida, é certeza de que tem gente por aí acreditando que mulher estuprada que aborta é assassina e que estuprador tem todo o direito de ser chamado de papai.

Tempos modernos que deixariam um ser da idade da pedra de cabelos em pé.

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 21/5/2024. 

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