Quem perde é o Brasil

Pela primeira vez em toda a nossa História um presidente da República se reúne com 70 diplomatas estrangeiros para afundar ainda mais a imagem do Brasil diante da comunidade internacional. Não se culpe o Itamaraty, cuja competência é reconhecida mundialmente, pelo triste episódio. Contra até mesmo a opinião do seu núcleo político, Jair Bolsonaro deu prosseguimento na sua escalada contra as urnas eletrônicas, tentando convencer os representantes de diversos países de que elas são passíveis de fraudes.

Se o objetivo era convencer o concerto das nações sobre a veracidade de teorias conspiratórias, a reunião foi inútil. Como destacou Rubem Ricúpero, diplomata ex-representante do Brasil junto a órgãos da ONU, o sistema eleitoral brasileiro “é visto no exterior como centro de excelência, com suas apurações rápidas e resultados incontestados”.

Essa convicção está assentada em um histórico de 26 anos, nos quais sucessivas eleições aconteceram por meio do voto eletrônico, sem que um só caso de fraude tenha sido registrado. Foram seis eleições para presidente, entre as quais a de Bolsonaro. Como ele não apresentou aos diplomatas estrangeiros provas que embasassem suas acusações, as nações civilizadas não mudarão de ponto de vista em relação ao sistema eleitoral brasileiro.

Ao contrário, quem sai desgastada aos olhos da opinião pública mundial é a própria imagem do presidente, que já não era boa. Muitos dos diplomatas entenderam as palavras do nosso presidente como “um discurso de perdedor”. Saíram da reunião convencidos de que há uma grave ameaça à democracia brasileira, podendo se repetir em nosso país episódio semelhante ao das eleições americanas, quando adeptos de Donald Trump invadiram o Capitólio.

O Brasil é a maior democracia da América Latina. Naturalmente suas eleições despertam a atenção do mundo. Agora de forma redobrada, pois a mensagem transmitida por Bolsonaro aos principais países do planeta foi a de uma possível ruptura democrática durante o processo eleitoral.

Quem sai perdendo com isso é o Brasil. Corremos o risco de voltarmos a ser vistos como República das Bananas, de profunda instabilidade política. Isso é péssimo para os negócios, para as relações comerciais e para a atração de investimentos externos em nosso país. Processos de privatização, como os das refinarias podem ser duramente atingidos, pois ninguém vai querer investir em país tumultuado politicamente.

Estamos perdendo tempo em discutir questões já precificadas. O Congresso já definiu que as eleições se darão por meio do voto eletrônico, mas o presidente e o ministro da Defesa insistem na adoção do voto impresso.  Há testes e mais testes comprovando a segurança do voto eletrônico, bem como a certeza de que é auditável. O próprio Tribunal de Contas da União deu parecer unânime comprovando a lisura e a inviolabilidade do nosso sistema eleitoral.

Mesmo assim nuvens sombrias permanecem no ar, alimentando receios quanto ao respeito do pronunciamento soberano dos brasileiros por meio do voto. O próprio presidente da República, a quem, em tese, cabe a responsabilidade de zelar pela estabilidade democrática, estimula e dissemina desconfianças, dando a entender que não se submeterá ao pronunciamento das urnas se as eleições não acontecerem do modo que ele quer.

Nesse quadro impõe-se às Forças Armadas uma profunda reflexão. A duras penas o Brasil ingressou no maior período de estabilidade democrática, deixando para trás os tempos de intervenção militar na vida política nacional. Ganhou o país, ganharam as Forças Armadas.

Elas puderam se dedicar exclusivamente às suas funções constitucionais. Granjearam o respeito dos brasileiros ao se comportarem como instituição permanente de Estado e não de governo. Esse ativo inestimável deve ser preservado por sua cadeia de comando. Aos militares compete a missão da defesa da nação, à Justiça eleitoral o comando do processo eleitoral.

Historicamente sempre houve uma relação de colaboração entre o Judiciário e as Forças Armadas nas eleições. Graças a ela as urnas chegam aos locais mais longínquos do mundo. Essa relação não pode se transformar em confronto, com as instituições militares avocando para si funções que são do poder civil, como a forma como se dará a eleição.

Isso, o Congresso Nacional já decidiu. Aliás, seu presidente, senador Rodrigo Pacheco, foi extremamente feliz,= quando declarou: “Uma democracia forte se faz com respeito ao contraditório e à divergência, independentemente do tema. Mas há obviedades e questões superadas, inclusive assimiladas pela sociedade brasileira, que não admitem mais discussão. A segurança das urnas eletrônicas e a lisura do processo eleitoral não podem mais ser colocadas em dúvida.”

A menos de 80 dias da eleição, já passou da hora de virar a página para o Brasil se concentrar naquilo que interessa: a discussão sobre os reais problemas dos brasileiros, como emprego, renda, saúde e educação. Que os candidatos apresentem suas propostas para os brasileiros, livremente, definirem quem merece comandar a nação a partir de 2023.

Fora disso, é perda de tempo. E quem perde é o Brasil.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 20/7/2022. 

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