O Tarado da Caixa!

Se estivéssemos falando de uma série para a TV, esse título poderia servir para um thriller apavorante que conta a história de um maníaco sexual que assedia mulheres dentro de uma empresa, onde ele é o mandachuva.

O personagem principal é um economista de 51 anos, defensor da família, da moral e dos bons costumes, tido como um cidadão do bem aos olhos de uma parcela da sociedade, mas na verdade é um tarado insaciável que não se intimida em atacar as mulheres que o cercam porque tem costas quentes, e sabe disso. Seus atos, ao longo dos tempos, teriam sido abafados pelos subordinados do primeiro escalão (dizem as más línguas que alguns até participavam da trama sórdida) e até mesmo pelo todo-poderoso que o indicou para o cargo.

Essas mulheres, com medo de serem despedidas ou desacreditadas, passavam por uma série de humilhações, às vezes buscando abrigo nos banheiros para fugir do contato físico com o “tarado da Caixa”, que é como ficou conhecido no meio.

Elas são envolvidas em uma centena de situações embaraçosas, tendo de suportar roçadas de mãos pelos seus corpos ou por terem de ouvir frases do tipo tô com saudades de você debaixo do meu cobertor, e te arrancar suspiros, fazer amor… (Como os diálogos não foram inteiramente divulgados, não se pode afirmar que ele usava exatamente essas palavras. É só um palpite.)

No desenrolar da trama, começa-se a perceber um movimento crescente de revolta entre as mulheres da empresa. Cansadas dessas mãos bobas daqui, mãos bobas dali e dos constantes assédios verbais, elas começaram a criar coragem e acabaram decidindo botar a boca no trombone (não como ele esperava, claro), e a verdade vem finalmente à tona.

Depois que o escândalo foi escancarado, como já se supunha, o agressor se travestiu com seu manto evangélico e saiu para um evento levando a mulher – desta vez, a própria – e fez um discurso todo choroso dizendo o quanto ele e sua Familia Acima de Tudo e Deus Acima de Todos estavam sofrendo com as “falsas acusações” sobre ele.

Para deixar a série ainda mais intrigante, o diretor mostra que o lado perverso do personagem não era só reservado às mulheres. Ele submetia seus funcionários a várias humilhações, como obrigá-los a fazer flexões de braço, por exemplo, em pleno ambiente de trabalho, sob ameaça de demissões, caso não fosse obedecido. Xingamentos e arroubos de grosseria eram constantes. Um áudio revela esta sua fala: “Caguei para a opinião de vocês porque eu que mando. Não estou perguntando. Isso aqui não é uma democracia. É a minha opinião”.

Como ocupava um cargo importante numa estatal, esperava-se que o presidente da República que o indicou viesse a público para tomar as atitudes cabíveis, aplicando medidas legais ou simplesmente dando um belo chute no traseiro do seu subordinado. (Quer medida mais legal que essa?)

Mas ele não se manifestou, o que no caso foi até bom, pois não seria de se espantar que fizesse uma live defendendo o garanhão dizendo que botaria seu pau no fogo por ele. (Em outro episódio recente declarou que poria a cara no fogo por um corrupto de sua estimação.)

Depois de alguns capítulos chega o momento em que a situação fica tão insustentável para o acusado que ele pede demissão do cargo, encerrando assim a primeira temporada.

Agora fica a expectativa do público que está ansioso pela segunda temporada. A torcida é para que ele seja condenado e passe seus dias tentando não ficar debaixo do cobertor do colega de cela. E que não consiga!

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 1º/7/2022. 

 

 

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