O Encouraçado centenário – e um garotão que sabe tudo

Tenho visto no Cine Antiqua do YouTube velhos filmes de Hollywood dos anos 30 a 50, que são minha praia preferida. Gosto de todo tipo de filme, ou quase todo (quase todo, porque há os slasher, por exemplo, e aí não dá pé). Mas de fato os clássicos de Hollywood são os de que eu mais gosto, que a rigor mais me divertem.

Acho uma delícia garimpar no Cine Antiqua: há belos filmes – e muitos outros nem belos nem a rigor importantes, mas que sempre têm alguma coisa interessante, fascinante… Me divirto muito escrevendo sobre eles. Hoje mesmo, por exemplo, terminei de escrever 350 linhas sobre um filme bem pouco conhecido, obscuro, que Raoul Walsh dirigiu em 1956, segundo Pauline Kael doido de vontade de terminar o dia de trabalho pra poder voltar pra casa e jantar. Chama-se The Revolt of Mamie Stover, e no Brasil ganhou o título de A Descarada.

Mas hoje resolvi ver um filme que, exatamente ao contrário desses obscuros produtos dos anos dourados de Hollywood, é belo e importantíssimo, um dos mais importantes que já foram feitos nestes 120 anos de História. O Encouraçado Potemkin, do meu xará Eisenstein, Sergei Mikhailovich Eisenstein.

Ou seja: em vez de diversão, muito trabalho pela frente.

Não tenho ainda nenhum Eisenstein no + de 50 Anos de Filmes. É uma das mais horrorosas lacunas do meu site. Acho o meu site bom pra cacete –  felizmente não sou dotado nem de metidez nem de falsa modéstia – mas sei que ele tem lacunas horrorosas. Meu sobrinho Beto, por exemplo, acha que uma das piores delas é não ter Blade Runner, e ele tem razão – embora seja mais grave não ter sequer um Eisenstein, sequer um D.H. Griffith, seu contemporâneo e seu antípoda ideologicamente.

E o fato é que hoje resolvi encarar O Encouraçado Potemkin, pra poder escrever sobre ele e eliminar uma das maiores lacunas do meu site.

Consulto minhas anotações – e elas me surpreendem. Tinha certeza de ter visto O Encouraçado ainda adolescente, em Belo Horizonte, ali por 1964 ou 1965. Minhas anotações mostram que vi o filme no início de 1973, o ano em que me casei com Suely Rossanez. Que fantástico: vi o filme no dia 24/2/73, em um cinema chamado Cosmos, em Buenos Aires, na viagem que fiz com meu amigo Guiminha, que se estendeu depois até o Chile de Salvador Allende. Não me lembrava disso de jeito algum! Que maravilha que é anotar!

Não foi a única vez. Voltei a ver O Encouraçado em 1978, em plena Era Regina Lemos, no Cine Belas Artes. Anotei no meu caderninho que era uma “versão sonora com música de Dimitri Shostakovitch”.

1978, ou seja, 44 anos atrás. Eu ainda era comunista.

***

Claro que é muito esquisito ver um filme propaganda do regime comunista, feito em 1925, neste momento em que a Rússia bombardeia a Ucrânia – e eu tendo deixado de ser comunista faz trocentos anos.

Morri de medo de detestar o filme ao rever agora, depois de tanto tempo – um tempo que eu até imaginava maior do que verdadeiramente era.

Sim, eu tenho isso. Às vezes, quando me disponho a rever filmes importantíssimos, ou pelos quais fui apaixonado, fico com medo de não gostar, de me decepcionar.

Bem, aí é que está. O filme é um brilho absoluto.

O troço vai fazer 100 anos de idade daqui a pouco – faltam apenas três anos!

É um brilho absoluto, uma obra-prima.

E quer saber? É filme propaganda do regime comunista, sim, é claro – mas, mais que isso, antes disso, é uma obra de arte absolutamente humanista. Linda, emocionante.

Rever O Encouraçado quase meio século depois, quase um século depois de ele ter sido feito, e me maravilhar com ele, foi a primeira experiência interessante.

A segunda veio logo em seguida.

Vi o filme no YouTube.

Eu tenho o DVD, que comprei quando saiu, e nunca sequer tinha aberto, sequer tinha tirado aquele plastiquinho que o envolve. Mas a qualidade de imagem estava um horror – é de uma daquelas empresas pequenas, vagabundas, que reproduziam cópias porcarias sem pagar qualquer tipo de direito autoral.

E então fui ao Cine Antiqua do YouTube, e lá há uma versão restaurada pela Fundação Cultural Federal da Alemanha (!!!).

Assim que o filme terminou, entrou no YouTube um troço com o título “A cena chocante que mudou o cinema”. Um vídeo de 15 minutos, em que uma voz obviamente de garotão, rapagão aí de não mais de 30 anos, fala sobre o filme e tudo o que ele influenciou no cinema.

O garotão diz “Aisenstain”, um erro super, super, super comum, porque as pessoas tendem a ir pela pronúncia de Einstein. O nome do meu xará é Eisenstein mesmo, ei com som de ei, não de ai – mas, tirando isso, tudo, tudo, absolutamente tudo o que o rapaz diz é corretíssimo.

Ele resume, numa narrativa de 15 minutos, tudo o que eu aprendi sobre a obra do Eisenstein ao longo da vida inteira, desde os cursos sobre história do cinema dados por bons críticos em Belzonte até os livros todos que li (e, diacho, não foram poucos).

Ele fala em linguagem de gente, não em linguagem empolada de crítico de cinema chato. E mostra os exemplos todos do que está dizendo. Mostrou, além dos exemplos super conhecidos – como Os Intocáveis de Brian De Palma –, diversos outros de que eu não tinha ouvido falar.

Mostrou, entre vários outros exemplos, que há uma tomada de A Última Noite de Bóris Grushenko/Love and Death (1975), um dos meu Woody Allen preferidos, que copia uma tomada do Encouraçado – e eu não me lembrava disso.

O trabalho do rapaz é impressionante. De babar.

Claro que lembrei do lead do texto sobre Os Intocáveis que escrevi para a revista Afinal, depois de ver uma pré-estréia do filme numa sessão das 10 da noite de sábado absolutamente lotada naquela maravilha que era o Cine Comodoro da Avenida São João:

“Quando Indiana Jones se encontra com Sergei Mikhailovitch Eisenstein, em uma das seqüências mais brilhantes, mais bem realizadas deste quase um século de cinema, a platéia aplaude, grita, assobia – como nos velhos seriados, nos velhos filmes de bangue-bangue. Claro, não importa que muita gente não saiba quem foi esse russo, mas Indiana Jones todos conhecem, Indiana Jones é demais – e ali está Indiana Jones, em mias uma de suas memoráveis aventuras, agindo desta vez sob o nome de Eliot Ness, agente do Tesouro americano, combatendo o crime, a corrupção, o fedor, o Mal, em Chicago, a capital do crime, da corrupção, do fedor, do Mal, nos Estados Unidos da Lei Seca e da Grande Depressão. São seis ou oito bandidos, na escadaria de uma estação de trem, contra apenas ele e um de seus Intocáveis – mas, como Indiana Jones, Eliot Ness é capaz de tudo.”

Não tem importância alguma, a não ser para mim, mas faço questão de registrar que naquela época, outubro 1987, eu não costumava escrever sobre filme, sobre nada. Era redator-chefe da revista (Sandro Vaia era o diretor de redação), acumulando o cargo com o de editor de Cultura, e trabalhava demais na edição, na coisa de dar forma final aos textos dos outros, fazer títulos, e supervisionar tudo e cada detalhe.

A revista estava na fase miserê, com pouquíssima gente na redação. Mas eu achava que tínhamos que dar uma matéria sobre o filme de De Palma que chegava depois de um lançamento sensacional nos Estados Unidos. Então fui à pré-estréia do filme no final de noite do sabadão, e escrevi um texto de duas páginas sobre ele.

O vídeo sobre O Encouraçado e o tanto que ele influenciou o cinema que veio depois dele mostra as cenas de Os Intocáveis que o povo aplaudiu no Cine Comodoro.

***

O garotão que fala em linguagem claríssima sobre o filme de Eisenstein com absoluta propriedade, dando um show de conhecimento, se chama Max Valarezo, e tem um canal no YouTube, chamado EntrePlanos. Algumas horas atrás nunca tinha ouvido falar nele; agora, sou seu fã desde criancinha.

3/3/2022

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