Marcha para Jesus!

Esse movimento que reúne evangélicos de várias denominações (nem dá pra repetir aqui os nomes; a cada esquina se encontra um templo de nome diferente), criado em 1987 pelo pastor Roger Foster, fez tanto sucesso lá em Londres que logo a moda se espalhou. Acabou virando uma Bola de Neve mundo afora com cada vez mais participantes.

Aqui no Brasil ele chegou seis anos depois e as marchas são realizadas concomitantemente em várias cidades do país.

É uma espécie de micareta religiosa. Os participantes seguem atrás de um trio elétrico só que sem o Chiclete com Banana pra puxar o desfile.

Também parece animado. Os integrantes que chegam em caravanas vindas de vários lugares seguem cantando alegremente louvando Jesus pelas ruas dos municípios.

 

Mas por que estou falando sobre isso agora?

É que, com a prisão de três pastores famosos nesta semana, os internautas não perderam a chance de usar o nome de movimento adaptado à situação. Muitos chamaram as prisões de Marcha Para a Cadeia, Marcha Para Bangu, Marcha Para a Papuda.

 

Numa operação batizada como Acesso Pago pela Polícia Federal, foram presos os pastores Gilmar Santos, Arilton Moura e o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro.

Mas como assim? Como esses homens de fé e de boa vontade foram parar na cadeia?

Bom, investiga daqui investiga dali e eis que a PF concluiu que esses três levavam muito mais do que a palavra de Deus por onde passavam. Levavam dinheiro vivo e até barras de ouro num fabuloso esquema de propina que facilitava a vida deles e a dos governantes evangélicos beneficiados com o dinheiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão ligado ao MEC e controlado por políticos do “honesto” Centrão.

Para isso foi criado um “balcão de negócios”, segundo a PF, dentro do Ministério da Educação que era comandado por quem mesmo? Ele, o evangélico, o probo Milton Ribeiro, que se vangloriava de trabalhar num governo sem corrupção, embora tenha declarado em áudio e bom som que as ordens para a facilitação das negociatas partiam diretamente do chefe Jair Bolsonaro.

 

Mas para ele isso não parecia ser motivo de preocupação, já que todos falavam a mesma língua do Senhor. O que realmente o preocupava eram temas do cotidiano como a homossexualidade, por exemplo. Chegou a dizer que gays vêm de “famílias desajustadas”. E ainda sobre questões de gênero disse em março último que não iria permitir que as escolas ensinassem “coisas erradas”. “Não tem esse negócio de ensinar você nasceu homem, pode ser mulher”. Segundo ele, as escolas têm de ensinar civismo e patriotismo.

Sobre ensinar honestidade passou batido. Afinal, nem a escola que ele frequentou tinha essa matéria no currículo, ao que parece.

 

Também, enquanto ministro não via com bons olhos que crianças especiais estivessem todas na mesma classe porque “atrapalham o aprendizado das outras”. “Há crianças com um grau de deficiência que é impossível a convivência.”

Por ser o único ministro da Educação até hoje que tenha feito esse tipo de observação, já podemos chamá-lo de preconceituoso? Ou, se preferirem, deixo um espaço em branco aqui para que preencham com o adjetivo que acharem mais adequado.

 

Sobre tudo isso, o presidente, que até outro dia punha a cara no fogo pelo ex-ministro, disse: “Que responda pelos atos dele. Se for culpado vai pagar”.

Na tradução para uma linguagem mais coloquial, isso equivale a um “foda-se”.

Uma declaração perigosa para quem está diretamente envolvido com a trama.

 

Será que o homem entrega tudo? Aguardamos ansiosos pelo próximo capítulo.

Que o Senhor esteja conosco e que nos livre desse mala, amém!

 

PS: Como neste país já virou hábito um prender outro soltar, Milton Ribeiro nem chegou a esquentar a cadeira na prisão. Mas eu continuo com minhas preces para que corruptos que se divertem com o dinheiro do povo que passa fome apodreçam na cadeia.

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 24/6/2022.

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