É loucura a Ucrânia resistir. A Ucrânia tem que resistir

Dois bons textos publicados neste dia 1º de março, terça-feira do carnaval que não pôde existir por causa da pandemia, defendem pontos de vista absolutamente, totalmente opostos.

E são, os dois, textos escritos com boa lógica, com bons argumentos.

Como é possível?

Pois é.

Reinaldo Azevedo, o conhecidíssimo jornalista, critica violentamente o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, por ter cometido e estar cometendo diversas “enormidades”, “desatinos grotescos”. Ele enumera as “enormidades”, os “desatinos grotescos” que vão todos no mesmo sentido, significam uma única coisa: pedidos para que a Ucrânia resista à invasão das tropas russas.

Tem lógica. Tem lógica dizer que é uma enormidade de um desatino grotesco distribuir armas a civis, soltar presos com experiência militar para combater os russos, convocar a população para enfrentar a potência que tem o maior arsenal nuclear do planeta com coquetéis molotov.

Como assim, combater o país das trocentas ogivas nucleares com coquetéis molotov?

Isso é insano. É uma enormidade de um desatino grotesco.

Pois é.

Em artigo em O Globo, uma pessoa de quem eu nunca tinha ouvido falar, André Lajst, diretor executivo da organização pró-Israel StandWithUs Brasil, diz que a Ucrânia precisa resistir, a Ucrânia não pode perder a guerra. Porque, se “os ucranianos deixarem de guerrear, seu país correrá o risco de deixar de existir”.

“Não há alternativa para os ucranianos, senão defender seu país e lutar com tudo de que podem dispor. Somente assim garantirão cada vez mais a liberdade, a democracia e a sobrevivência da sua nação.”

Tem lógica. Tem toda lógica.

Mas, uai, isso não é possível!

Não é possível haver lógica, entendimento, razão, em um artigo que diz que é absoluta loucura, insanidade, desatino o povo ucraniano resistir ao invasor russo, e haver lógica, entendimento, razão em um artigo que diz exatamente o contrário – que o povo ucraniano tem que resistir ao invasor.

Pois é.

Fiquei pensando sobre esses dois textos, o de Reinaldo Azevedo e o de André Lajst. Não consigo chegar propriamente a uma conclusão lógica, racional.

Só me parece que, diante da insanidade absolutamente total que é a invasão de um país livre, independente, soberano, democrático, por uma potência dirigida por um autocrata lunático, um, como diz André Lajst, “ditador misógino, xenófobo e homofóbico”, a lógica desaparece.

Torço desesperadamente pelos civis ucranianos com seus coquetéis molotov contra os bem treinados soldados russos com seus tanques poderosíssimos e suas 5.977 ogivas nucleares.

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Gostaria de republicar aqui a íntegra do artigo de Reinaldo Azevedo, mas o UOL não permite que se copie o texto. Assim, publico aí abaixo o trecho que o Reinaldo transcreveu em sua página do Facebook. E, em seguida, o artigo de André Lajst.

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Brasil acerta; “Mito” erra. Ou: Putin e Bolsonaro emburrecem seus críticos.

Por Reinaldo Azevedo, UOL, 1º/3/2022

São tais e tantas as boçalidades cotidianamente ditas por Jair Bolsonaro sobre qualquer assunto — incluindo a invasão da Ucrânia — que todos os juízos acabam se contaminando pela rotina de despropósitos. Assim, dois pronunciamentos corretos e serenos de Ronaldo Costa Filho, embaixador do Brasil na ONU, não mereceram o devido destaque na imprensa brasileira. Até porque, com exceções raras, em as havendo, também ela está operando no “modo Otan”. Se o tirano Vladimir Putin não aceita nada que não seja a rendição da Ucrânia a seus aviões e blindados, a divisão dos teclados só se contentará com a Rússia de joelhos.

(…)

Ocorre que, quando o Santo Guerreiro está em luta contra o Dragão da Maldade, ninguém está interessado em ouvir minimamente o malvado, e se vão endossar até os desatinos mais grotescos do suposto herói, Zelensky, o presidente da Ucrânia, que fez estas enormidades:

– convocou a população a enfrentar os russos com coquetéis Molotov;

– distribuiu armas a civis;

– anunciou a soltura de presos com experiência em ações militares para combater os russos;

– convidou jovens do mundo inteiro a ir para a Ucrânia lutar;

– assinou protocolo de adesão à União Europeia enquanto seus representantes “negociavam a paz” em Belarus…

Bolsonaro e Putin, com efeito, têm o dom de emburrecer muitos dos seus críticos. A culpa não é deles, mas dos burros. Não permita que gente ruim paute seu pensamento.

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A Ucrânia não pode perder a guerra

Por André Lajst, O Globo, 1º/3/2022

Uma frase atribuída à primeira-ministra israelense Golda Meir (1898-1978) diz: “Se os árabes baixarem as armas, haverá paz; se os israelenses baixarem as armas, não haverá mais Israel”. Essa é uma das similaridades entre o atual conflito na Ucrânia e a posição do Estado judeu durante as guerras da Independência, em 1948; dos Seis Dias, em 1967; e do Yom Kipur, em 1973 — decisivas para definir a configuração atual do país. Do mesmo modo, caso os russos suspendam a ofensiva hoje, haverá paz. E, na hipótese de os ucranianos deixarem de guerrear, seu país correrá o risco de deixar de existir.

Há outras semelhanças entre as histórias da Ucrânia e de Israel, e não me refiro ao fato de o presidente Volodymyr Zelensky ser judeu ou de seus antepassados terem sido mortos no Holocausto perpetrado pela Alemanha nazista.

A Ucrânia se tornou independente após a queda da União Soviética e, assim como Israel, é um país multiétnico, com uma maioria e diversas minorias que convivem num ambiente cada vez mais democrático e livre. Assim como a Ucrânia enfrenta hoje uma agressão da Rússia, potência com poderio militar superior, Israel enfrentou quatro grandes guerras contra países árabes que se juntaram para tentar destruí-lo, todos financiados e armados pela ex-União Soviética. Esses países não admitiam que Israel era um país legítimo e tinha o direito de existir — o que coincide com o discurso russo em relação à Ucrânia. Os dois países também se aproximam pela sede por lutar para manter liberdade e democracia numa região assolada por regimes autoritários e ditatoriais.

Israel, assim como a Ucrânia, não podia se dar ao luxo de perder uma guerra. A derrota significaria o fim do país e, consequentemente, o fim dos direitos políticos e dos direitos humanos de seus cidadãos. Na Ucrânia de hoje, a sobrevivência da nação significa liberdade para minorias, como a comunidade LGBTQIA+, perseguida na Rússia, que teme especialmente por seu futuro, caso o país caia diante do invasor.

As motivações são muito parecidas também. O presidente da Ucrânia respondeu aos EUA, depois de lhe oferecerem uma saída do país segura e asilo, que “não precisava de uma carona, mas de armas e munição”. Da mesma forma, primeiros-ministros israelenses já responderam aos EUA ou a outros atores que “Israel sempre se defenderá — mesmo que tenha de fazer isso sozinho — contra qualquer ameaça”. Vemos voluntários ucranianos se alistando no Exército e aprendendo a usar armas, como fizeram judeus nas décadas de 1940 e 1950, quando Israel enfrentou guerras totais que poderiam ter destruído por completo o jovem país.

Então e agora, vemos, de um lado, um país democrático, onde homens e mulheres são protagonistas de sua História, enquanto, do outro, há um ditador misógino, xenófobo e homofóbico. Israel, quando enfrentou países maiores com exércitos superiores, mais verbas e armas mais potentes, sempre disse a seus cidadãos e ao mundo: “Não temos outra alternativa, a não ser ganhar a guerra, pois simplesmente não temos para onde ir”. O mesmo vale para a Ucrânia. Não há alternativa para os ucranianos, senão defender seu país e lutar com tudo de que podem dispor. Somente assim garantirão cada vez mais a liberdade, a democracia e a sobrevivência da sua nação.

1º/3/2022

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