A nova ordem

Ainda não sabe como e quando terminará a guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, mas já há uma certeza: o conflito representa o fim de uma era e o marco de uma nova ordem mundial. A queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética geraram um mundo unipolar com forte hegemonia dos Estados Unidos. Foram tempos de intensa globalização da economia, com o advento das grandes cadeias produtivas globais e o fortalecimento dos valores liberais.

A guerra da Ucrânia reduziu a pó a premonição do cientista político Francis Fukuyama do fim da história e de uma ordem que seria eterna. O conflito instalou um momento disruptivo, com o restabelecimento da bipolaridade e sua consequente divisão do mundo em dois blocos geopolíticos. De um lado, a aliança norte-atlântica constituída pelos EUA e a Europa Ocidental e, de outro, o bloco eurasiano, a partir do eixo Pequim-Moscou, com tendências de se expandir para a Índia, Turquia e Irã.

O conflito bélico na Ucrânia, o primeiro envolvendo dois países europeus pós Segunda Guerra Mundial, é a parte quente de uma nova guerra fria. Mas há aqui uma diferença fundamental em relação à bipolaridade do século passado.

Esta se dava entre dois sistemas antagônicos – capitalismo versus comunismo – e o alinhamento geopolítico se dava por princípios comuns e afinidades ideológicas. A guerra fria contemporânea se apoia fundamentalmente no terreno econômico. A corrida principal não é nuclear ou bélica, é econômica e tecnológica. Pode até haver valores em jogo, uma vez que a maioria dos países da aliança atlântica tem regimes liberais, enquanto os da Eurásia são iliberais, quando não ditatoriais.

Mas a China não tem a pretensão de exportar seu modelo totalitário para outros países, ao contrário dos tempos da antiga União Soviética, e sua economia é tão capitalista quanto a dos Estados Unidos, ainda que sob a forma de capitalismo de Estado.

O fato de a principal batalha ser em torno da hegemonia econômica e tecnológica traz dúvidas sobre a natureza da aliança entre a Rússia e a China, reafirmada nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim. Ainda não está claro se ela é estratégica e inabalável, como a definiu Xi Jinping, ou uma aliança tática, conforme considera Ronaldo Carmona, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Isso explica nuances entre os dois países mesmo em relação à guerra na Ucrânia.

A China não condenou a invasão russa, mas defende a solução pacífica para o conflito. O pano de fundo é que a China é inteiramente integrada à economia mundial, responsável por um quinto do PIB do mundo, e beneficiou-se do processo de globalização.

O segundo grande fenômeno da nova ordem econômica mundial é a desglobalização, que antecede a guerra. Vide o Brexit e a eleição de Donald Trump. A pandemia evidenciou que a dependência das cadeias produtivas globais de insumos médicos se torna crítica em momentos de grave crise sanitária, afetando a soberania dos países.

A guerra da Ucrânia expôs a olhos nus a dramaticidade da ultra dependência dessas cadeias globais. A alta do preço do petróleo e a dependência da Rússia colocou na pauta a necessidade de os países da Europa Ocidental encontrar e investir em fontes energéticas alternativas. Mesmo no terreno militar, o conflito está levando a uma redefinição da “divisão de trabalho” vigente desde a guerra fria passada.

Os países dessa parte do continente pouco investiam em termos bélico-militar porque o poderio dos Estados Unidos servia de “elemento de contenção”, conceito formulado em 1947 pelo diplomata americano George Kennan. Donald Trump, como presidente, reclamava do fato de seu país arcar com os custos da OTAN, exigindo que os países europeus investissem na área militar. Com a guerra da Ucrânia, a Alemanha, a França e outros países pretendem aumentar seu orçamento militar, por uma questão de segurança nacional.

Como observou Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, “as punições econômicas à Rússia levarão ao desmoronamento da globalização” e vão acelerar o processo de desmontagem das cadeias produtivas globais.  A China, por exemplo, já está investindo pesado para desenvolver seus próprios chips para não depender de outros países.

A desglobalização consiste exatamente em os países diminuírem a interdependência e terem mais autonomia em áreas estratégicas ou que são vulneráveis. No caso brasileiro, essa demanda ficou evidenciada em relação aos fertilizantes, face nossa dependência da Rússia. O fator custo de produção foi determinante para a formação das cadeias globais. Agora, ele não será o único. Países tendem a aceitar custos de produção maior, desde que os assegurem por meio da produção interna.

Na Nova Ordem Mundial em gestação faz todo sentido a afirmação do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero: “Pode-se chegar a um mundo em que haja dois sistemas de pagamento, dois sistemas bancários e mesmo dois sistemas de internet separados, o que atingiria a globalização no seu âmago”.

Com a economia se transformando em arma geopolítica, não estamos muito distantes do quadro descortinado por Ricúpero. O Irã já criou seu sistema de Internet. Mesmo o dólar pode perder o status de moeda única do sistema econômico mundial . Países como a China, a Rússia, a Índia e até mesmo a Arábia Saudita – aliada histórica dos Estados Unidos – já utilizam outra moeda que não a americana nas relações comerciais interpaíses da Eurásia.

A bipolaridade e a desglobalização trazem novos desafios para o Brasil. Se de um lado nos identificamos com os valores do mundo ocidental, a China é o nosso principal parceiro comercial. O pragmatismo responsável – pilar fundamental da nossa cultura diplomática – aconselha a não se alinhar com nenhum dos dois blocos e a entender que é de nosso interesse um mundo multipolar em um ambiente de paz.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 6/4/2022. 

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