Transformar o passado

Que os Bandeirantes não eram iluministas, todo mundo sabe. Nem eles nem o mundo de sua época. Afinal, os valores do iluminismo só iriam se afirmar mais de um século depois, com a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos. Não faz sentido, portanto, julgá-los com os valores de hoje, descontextualizado do momento histórico no qual operaram. E muito menos levá-los à fogueira da nova inquisição. Foi o que aconteceu com a estátua de Borba Gato, queimada por um grupo denominado “Revolução Periférica”.

O movimento pega carona em fatos ocorridos há um ano nos Estados Unidos, onde até a estátua de Cristóvão Colombo foi vítima de atos de vandalismo. Colombo, que é apresentado em livros escolares como sendo “o descobridor da América”, agora passou a ser considerado um dos responsáveis pelo genocídio dos povos indígenas, e denunciado também por ter defendido a escravidão.

Em 2020 a onda também varreu a Europa e dela não escapou sequer Winston Churchill, ex-primeiro-minitro britânico e herói da II Grande Guerra. Manifestantes picharam uma estátua de Churchill com a frase “era um racista” durante um protesto em Londres.

Nos Estados Unidos, definido pelo jovem Karl Marx como “o país da mais acabada emancipação política”, também foram ao chão as estátuas de dois dos seus pais fundadores, George Washington e Thomas Jefferson. Motivo: foram proprietários de escravos, como se isso anulasse suas enormes contribuições para a formação de uma nação exemplo de democracia.

Não se faz reparação histórica derrubando símbolos e patrimônios. Uma coisa é entender a escravidão como uma chaga da humanidade, inserida na chamada acumulação primitiva do capital, assim como o colonialismo, a pirataria, o trabalho infantil e a enorme exploração do trabalho. Outra coisa é pôr terra abauxi tudo o que direta ou indiretamente teve relação com o escravismo. Se fosse assim, teriam de ser destruídos sítios históricos como as pirâmides do Egito, o Convento de Mafra, a Muralha da China, o Coliseu, as igrejas de Ouro Preto, o Pelourinho.

E se for para banir da história brasileira quem foi proprietário de escravos, sobrarão poucos daquele período. Nem mesmo Tiradentes. Segundo o historiador e escritor Laurentino Gomes, uma das maiores autoridades sobre a escravidão no Brasil, o líder da Inconfidência Mineira era proprietário de seis escravos no seu último ano de vida. O historiador indaga: “Vamos queimar também suas estátuas?”

O que seria então de Zumbi?

Será  dada razão ao presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que quer bani-lo da história pelo fato de também ter capturado e mantido escravos no Quilombo de Palmares. Zumbi também não era nenhum iluminista e o fato de ter capturado e mantido escravos não o torna uma fraude da história, nem tira o valor do Dia da Consciência Negra. Não se pode exigir de uma pessoa do século 17 os mesmos valores de liberdade e de igualdade dos tempos atuais.

Vale para Zumbi, vale para os Bandeirantes. É reducionismo defini-los como “invasores cruéis, saqueadores de aldeias, estupradores, assassinos, escravagistas”, como fez a co-deputada estadual Mônica Seixas (PSOL-SP). No caso de Borba Gato há controvérsia se era um caçador de índios ou de esmeraldas. Mas isto não é o mais importante para entender o papel dos desbravadores dos nossos sertões.

Diferentemente das Entradas – expedições patrocinadas pela coroa portuguesa limitadas ao território português de acordo com o Tratado de Tordesilhas -, as Bandeiras, não se submeteram a esse limite. Rasgaram sertão adentro, expandindo as fronteiras brasileiras bem mais além.  Suas conquistas fizeram do Brasil um país continental.

A grande contribuição de Alexandre de Gusmão, representante de Portugal no Acordo de Madri de 1750, foi assegurar, pela via pacífica, a posse brasileira dos territórios conquistados pelos Bandeirantes. Nossas fronteiras de hoje praticamente têm a mesma configuração da época dessas conquistas. De lá para cá, nosso território foi acrescido, pela via da negociação e da arbitragem, do Acre, do Oeste de Santa Catarina e de uma parte do Amapá.

As chamas da intolerância só revelam o quanto uma dada esquerda empobreceu intelectual e politicamente. Sem projeto de futuro desde o fim da União Soviética, quer transformar o passado. O grupo Revolução Periférica é produto deste rebaixamento cultural. Segundo um artigo apologético da jornalista Laura Capriglione, publicado no site Jornalistas Livres, os jovens da Revolução Periférica “não se sentem representados pelos atos bem-comportados da Avenida Paulista, um falatório jogado ao léu, de cima de carros de som a que poucos escutam, guardados por seguranças que decidem quem sobe e quem desce”.

A autora é taxativa: “A Revolução será periférica ou não será!”

Ela coloca Marx de cabeça para baixo. A classe operária não é mais a portadora do futuro. Agora são os jovens da periferia que queimam monumentos.

Pobre Karl Marx, deve estar se revirando no túmulo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/7/2021. 

Foto Gabriel Schlickmann/Ishoot/Estadão Conteúdo.

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