Quem desrespeita as Forças Armadas

José Sarney, que o acaso, o destino, o fado, as fadas tornaram o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar, não fez mal algum às Forças Armadas.

Nem Fernando Collor de Mello. Este fez mal ao país como um todo – mas especificamente quanto às Forças Armadas, não causou dano algum.

Assim como Michel Temer.

Nem o “esquerdista” Fernando Henrique Cardoso, que teve que se exilar durante a ditadura, nem o “comunista” Luiz Inácio Lula da Silva, nem a presa e torturada Dilma Rousseff fizeram qualquer mal às Forças Armadas.

Nada. Nadinda. Coisa alguma.

Quem enxovalha as Forças Armadas é o tenentezinho insubordinado que planejou ataques terroristas a quartéis e acabou passando a capitão ao ser afastado para a reserva.

Quem joga sobre as Forças Armadas todas as manchas possíveis e imagináveis é ele, o Capitão das Trevas.

Será possível que os oficiais mais graduados, que passaram anos e anos nas academias, que estudaram, que conhecem História, não percebam isso?

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Escrevi as linhas acima ali por volta das 5 da tarde desta quarta-feira, 7/7. Eu havia lido o ótimo editorial de O Globo, “Militares em escândalos na Saúde constrangem as Forças Armadas”, e decidido transcrevê-lo aqui.

Agora no início da noite, antes que tivesse tempo de colocar este texto no ar, vejo a patética nota oficial assinada pelo ministro da Defesa e pelos três comandantes das Forças Armadas, em resposta a um comentário feito pelo presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Azis (PDS-AM).

Reportagem de Felipe Frazão no portal do Estado de S. Paulo informa que a nota “foi articulada pelo ministro Braga Netto, general de Exército da reserva escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro como interventor na Defesa. Ele foi o responsável por coordenar a troca inédita de toda a cúpula da Defesa, no fim de março, quando o presidente cobrava alinhamento político ao seu governo.”

Diz a nota que seguramente faria militares como o Duque de Caxias, o marechal Castello Branco e os generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel vomitarem de nojo:

“O Ministro de Estado da Defesa e os Comandantes da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira repudiam veementemente as declarações do Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, Senador Omar Aziz, no dia 07 de julho de 2021, desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas de corrupção.

‘Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável.

“A Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira são instituições pertencentes ao povo brasileiro e que gozam de elevada credibilidade junto à nossa sociedade conquistada ao longo dos séculos.”

No UOL, esse Leonardo Sakamoto, de quem eu jamais ouvira falar, fez o título corretíssimo: “Militares ameaçam Senado enquanto baixam a cabeça para Bolsonaro”.,

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Ô diabo. Quem desrespeita as Forças Armadas são o tenente insubordinado, subversivo e terrorista Jair Bolsonaro e os maus militares que ainda hoje, após dois anos e meio de desmandos, truculências e desrespeito continuado à Constituição, continuam  a segui-lo, como esse descerebrado e descolunavertabralizado Braga Netto.

Ao longo de 33 anos, de 15 abril de 1985 até 31 de dezembro de 2018, os presidentes da República não fizeram mal algum às Forças Armadas – e, durante esse tempo, de fato as Forças Armadas vieram readquirindo o respeito da população brasileira,

Quem desrespeita as Forças Armadas, quem enxovalha a instituição, quem joga lama sobre ela é Jair Bolsonaro.

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Militares em escândalos na Saúde constrangem as Forças Armadas

Editorial, O Globo, 7/7/2021

Com sua tendência a militarizar a administração, o governo Bolsonaro imaginou que colocar uma “tropa” no Ministério da Saúde seria uma decisão acertada para derrotar o novo coronavírus. Quase um ano e meio de pandemia depois, constata-se que a estratégia fracassou. Com mais de 525 mil mortos, o enfrentamento à pandemia é esquadrinhado por uma CPI para que se apurem erros e omissões. Militares, que chegaram à Saúde para evitar irregularidades, estão hoje no centro dos escândalos.

Em depoimento à CPI da Covid, o servidor Luis Ricardo Miranda, chefe de Importação do Departamento de Logística, disse ter recebido pressões de superiores — entre eles o tenente-coronel Alex Lial Marinho e o coronel Marcelo Bento Pires — para apressar a importação da vacina Covaxin, a mais cara entre todas as contratadas pelo governo. Marinho, que foi coordenador-geral de Logística de Insumos Estratégicos, deixou o ministério no início de junho, retornando ao Exército. Pires, que atuava na logística de vacinas, também não ocupa mais cargo na pasta.

Outro militar em evidência nos escândalos das vacinas é o tenente-coronel Marcelo Blanco da Costa. Noutro episódio sob investigação (as negociações malogradas para comprar 400 milhões de vacinas da AstraZeneca), Blanco foi citado pelo cabo da PM Luiz Paulo Dominguetti como participante do jantar, em 25 de fevereiro, em que o então diretor de Logística, Roberto Dias, cobrou, segundo Dominguetti, US$ 1 de propina por dose. Dias nega. Blanco confirma o encontro, mas também nega que tenha ouvido pedido de propina.

O próprio general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, é alvo de investigações sobre falhas na crise de Manaus, omissão na compra de vacinas e uso de drogas ineficazes contra a Covid-19 no famigerado “tratamento precoce”. Ex-número dois de Pazuello, o coronel Elcio Franco recebeu no Ministério da Saúde intermediários aventureiros que tentavam vender ao governo vacinas que não tinham.

A ênfase dada aos militares na pandemia fica evidente também na distribuição das verbas. Como informou a coluna de Malu Gaspar no GLOBO, parte dos recursos extras para o SUS acabou destinada a gastos de rotina da caserna, de acordo com análise de Elida Graziane Pinto, procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo. Segundo o relatório, enviado à CPI, ao menos R$ 140 milhões da verba emergencial foram parar no Ministério da Defesa, sem justificativas.

A despeito da tropa escalada para reforçar o ministério, a pasta se tornou um balcão de negócios para tratativas espúrias, enquanto brasileiros morriam aos milhares vítimas de negligência. Vacinas que não existiam, outras mais caras, pedidos de pagamentos antecipados em prejuízo ao Erário, toda sorte de negociação nebulosa que precisa ser investigada. Até agora, a atuação dos militares na Saúde só tem servido para embaraçar o governo e constranger as Forças Armadas, cuja imagem se deteriora a cada dia pela associação com o governo Bolsonaro.

7/7/2021

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