O último prego

O Banco Central do Brasil cravou ontem o último prego no caixão do atual governo. Um prego de 9,5 cm de comprimento e grossa bitola. Não foi culpa da oposição, não foi culpa dos governadores, não foi culpa dos prefeitos. O único culpado é o próprio governo, que entre cortar despesas ou aumentar os juros para enfrentar a inflação, que ele mesmo encomendou e embalou, preferiu a segunda opção. A população e o setor produtivo pagam pela incompetência. Que é duplamente incompetente, porque a alta de juros não vai funcionar.

A onda inflacionária que vem desde o ano passado levantou-se no horizonte não porque havia excesso de demanda. Ao contrário, a alta de preços se devia à baixa oferta de produtos no mercado interno, em benefício do mercado exportador. Esta inflação é de oferta, não de demanda. Juros altos não funcionam para inflação de oferta. Se a economia estivesse aquecida, sim, funcionariam. Mas está quase morta e os juros altos vão matá-la de uma vez.

Ressuscitar a economia será a tarefa de emergência do próximo governo. Não deste, que é incompetente e negacionista. Para ele não há inflação, mas uma ligeira e passageira alta de preços em consequência da alta das commodities no mercado internacional. Para ele não há pandemia, mas uma gripezinha que bateu por aqui e alhures e já está passando. Para ele não havia necessidade de vacinas, porque havia o kit covid para todo mundo tomar e passar bem. Para ele não havia necessidade de testagem em massa da população, porque isso só revelaria um aumento assustador de casos e levaria ao pânico. Era melhor que as pessoas se infectassem e morressem quietas, sem perturbar ninguém. A única coisa em que esse governo acreditava é que a contaminação de rebanho acabaria com o vírus. Um cálculo tosco e macabro, que resultou na morte de 616,018 mil pessoas e 22,157 milhões de infectados e sequelados.

Agora vem a conta. A economia está em frangalhos e vai continuar assim por todo o ano eleitoral de 2022. Nesse passo, perdem a reeleição no primeiro turno. Jogam todas as fichas no Bolão do Auxílio Brasil, uma loteria eleitoreira que é espelho do fracasso do ministro da Economia em gerar riqueza e empregos e do descaso de seu chefe pelos 63% do eleitorado que o rejeitam e os 77% que não vão votar nele – números da última pesquisa Quaest. Acrescentem-se a esses números o de desempregados, o de subempregados e o de desalentados e se tem o quadro mais completo da tragédia em que nos meteram os 57,797 milhões de eleitores que votaram nele no segundo turno em 2018 – 55,13% dos votos válidos.

Os brasileiros não se importam muito em quem votam. Em outros tempos elegeram o rinoceronte paulista Cacareco e o carioquíssimo macaco Tião, que atirava cocô nos seus admiradores. Mais para trás elegeram o Jânio Quadros e mais para frente o Fernando Collor. Todos se elegeram – exceto os quadrúpedes – dizendo que iam acabar em definitivo com a roubalheira, os marajás e a carestia. Os quadrúpedes, mais discretos, ficaram calados. Não sei se estou certo chamando macacos de quadrúpedes, mas com certeza estou se chamar os humanos eleitos de populistas delirantes. Porque não tinham a mínima ideia de como acabar com a corrupção, a inflação e os marajás do serviço público. Mas receberam chuvas de votos.

Já escreveram em livros, jornais e revistas incontáveis analistas, comentaristas e literatos, ao longo de décadas e séculos, que é com os erros que o eleitorado acaba aprendendo. Não estou aqui para tirar a esperança de ninguém, nem dos mortos nem dos vivos, mas tenho minhas dúvidas. Eu acho que o eleitor nunca vai aprender coisa nenhuma se os partidos continuarem selecionando para eles os piores políticos, se os governos continuarem promovendo educação da pior qualidade para as novas gerações, se as famílias continuarem acreditando em deuses, mitos e salvadores da pátria para encaminhar seus filhos.

Desse jeito continuaremos marchando para o brejo e nos atolando cada vez mais até não podermos mais sair do lugar. Em 2022 vamos ter uma pequena amostra disso, um aperitivo amargo de um destino apavorante. Vamos ter um ano de estagflação crônica, em que se combinam desemprego ascendente, renda declinante, preços escorchantes, indústria e comércio minguantes.

Infelizmente, os economistas prevêem mais pregos no caixão, porque os juros não vão ficar parados nos 9,5%. Vão continuar subindo – rumo a percentuais tanto mais desastrosos quanto mais renitente for a inflação. Vão dar mais água para o afogado beber.

Cortar as despesas dos três poderes nos três níveis de governo é o que deveriam fazer para desafogar o Estado. Não resolve tudo, seria só o começo de uma nova jornada, para reduzir a dívida pública e a inflação. Mas nem isso querem fazer. Mais vale afogar os outros. E os outros, pessoal, somos todos nós.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e incrédulo. 

Dezembro de 2021

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