O sabotador

Talvez haja precedentes na História política da humanidade de um presidente que sabota seu próprio governo. Mas um que sabote a si mesmo eu aposto minha bola de cristal que não tem. Certo ou errado? Errado! Teve um sim, por aqui mesmo, no Brasil. O ano era 1961 e o nome dele era Jânio da Silva Quadros.

Atuando sem método e com muito espalhafato, em pouco mais de seis meses jogou-se dentro da cova que foi escavando diante de si mesmo desde o primeiro dia. Na hora H, com a carta de renúncia na mão, o então presidente do Congresso apressou-se não em salvá-lo, mas em empurrá-lo para dentro dela.

O atual inquilino do Alvorada abusa da sorte: está cavando a própria fossa desde que tomou posse, três anos atrás, sem nem parar para pensar no que está fazendo, como de hábito. Sorte dele que não apareceu, ao menos até agora, um presidente do Congresso disposto a empurrá-lo do barranco.

O que talvez explique a razão é que nos tempos de Jânio Quadros não havia Centrão. Claro que havia tretas e barganhas, mas um balcão oficial de negócios, organizado e próspero, instalado nos corredores e desvãos do Congresso e do Executivo, isso não existia. Não havia tantos partidos e eles eram bem definidos, o que dificultava a formação de blocos políticos à margem dos partidos. Hoje a mistureba é geral e o descaramento, escancarado.

O Centrão é uma espécie de pronto-socorro para governantes incompetentes. Presta os primeiros e os últimos socorros ao indigitado. Presentemente, já prestou os primeiros. Logo virão os últimos. Depois, pode chamar o padre. Restará ao paciente, tão-somente, esperar a eternidade chegar.

O Centrão virou um apêndice purulento tão forte para o organismo político nacional que se tornou a garantia de continuidade de qualquer governo. Sem ele não se governa. E não se trata de levar a criatura à sala de cirurgia para extirpar o cancro a golpes de bisturi. Se fizerem isso, o paciente morre. É como arrancar o coração da criatura sem anestesia.

A única forma de extrair o órgão putrefato, a unha encravada, o joanete que dói e deforma o pé, o bico de papagaio, o carnegão do furúnculo na virilha… é fazer uma reforma política pra valer. Acho interessante a criação das federações partidárias. É um bom começo para uma profilaxia geral. Espero que com o tempo cada federação acabe se tornando um partido. Teríamos, então, a federação da esquerda, a federação da direita, a federação de centro-direita, a de centro-esquerda, a de centro, enfim, uma meia dúzia de federações, ou pouco mais, que no futuro seriam seis partidos ou pouco mais. Número pra lá de razoável. Hoje temos mais de 30, segundo uma conta que li – um absurdo total.

As famosas bancadas, dos pecuaristas, dos evangélicos, da bala, dos delegados, toda essa barafunda que existe hoje não teria mais razão de ser, pois todos os políticos teriam de se perfilar dentro de suas respectivas federações e partidos, votando conforme a sua filiação, e não conforme seus interesses pessoais ou de grupo social.

Não teríamos mais um presidente sustentado pelo balcão dos negócios toma-lá-dá-cá, como agora. Se quisesse a cova, que a encarasse sem delongas, poupando a nação de um desgaste político, econômico, social e moral que ela não merece. O atual inquilino do Alvorada diz que a Presidência é um saco e não vê a hora de acabar com isso. Não se entende bem o que o sujeito pensa de si e das coisas, porque mais parece uma biruta de aeroporto, mas eu me pergunto por que e para que então quer se reeleger?

Se está sabotando a si mesmo ao sair de férias enquanto a Bahia vem abaixo e ao sabotar as vacinas que o país inteiro quer para todas as faixas etárias, eu me pergunto por que então quer a reeleição? Para continuar enchendo o nosso saco com o lero-lero da antivacina? Do kit covid? Da Amazônia que não pega fogo porque é úmida? Dos índios e ribeirinhos que botam fogo nela? Da China que vai dominar o mundo e levar o nosso nióbio? Dos comunistas que vão nos puxar pelo pé da cama durante a noite? Da economia que vai bombar a qualquer hora e sempre bomba ao contrário, na nossa cara?

Alguma razão existe e parece estar fora do alcance de nossa vã filosofia. Alguns afirmam que ele quer um novo mandato para não ir preso, como aconteceu com o Temer. Mas o Temer logo saiu e está por aí, leve e solto. É até chamado por ele para dar-lhe conselhos. Não sei o que é. Mas que tem alguma coisa muito podre não no reino da Dinamarca – como ele já pensou, misturando alhos com bugalhos – mas embaixo do seu topete, há de ter.

Não deve ser coisa simples. No caso de Jânio Quadros era simples, bem simples. O medo dele não era o comunismo. O medo dele eram os biquínis das misses nas passarelas e das jovens nas praias de Copacabana e do Guarujá. Eram as rinhas de galo, o jogo do bicho, o lança-perfumes, o jeans feminino que começava a desbancar os vestidões até o calcanhar, os funcionários públicos que iam trabalhar de terno e gravata e ele queria que fossem de uniforme, sabe-se lá qual. Detestava os políticos, os governadores, os prefeitos, o Congresso Nacional, tudo isso era um grande estorvo. Por fim, sem quê nem pra quê, tascou a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul no peito do Che Guevara, que fazia uma rápida escala em Brasília para conhecê-lo, uma semana antes de o maluco renunciar. Jânio era comunista? Não, Jânio era louco de pedra.

E fez escola.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e desconfiado. 

30/12/2021

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