O ovo da serpente

Ao longo dos seus 245 anos, os Estados Unidos venceram vários momentos de estresse. O país enfrentou duas guerras mundiais, uma guerra fria, guerras regionais na Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, a crise dos mísseis, os assassinatos de Abraham Lincoln, John Kennedy, Martin Luther King e Robert Kennedy, o atentado terrorista de 11 de setembro, a tentativa de assassinato de Ronald Reagan. Viveu ainda o macarthismo, os conflitos raciais dos anos 60, uma corrida nuclear que deixava o mundo em suspense, Watergate e a renúncia de Richard Nixon.

Por mais grave que tenham sido esses episódios, em momento algum sua democracia esteve em risco. Seus freios e contrapesos mostraram sua resiliência e a alternância do poder sempre aconteceu de forma civilizada e pacífica. Sua pujança fez a democracia americana ser a mais admirada do mundo . Afirmou-se enquanto valor, aquelas verdades evidentes proclamadas pelos pais fundadores dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que viu fracassar o fascismo, o nazismo e o stalinismo.

O 6 de janeiro de 2021 entra para a História como o dia em que essa tradição foi rompida pela tentativa de golpe, tramada, engendrada e insuflada por Donald Trump, o primeiro presidente americano a conspirar abertamente contra as instituições democráticas da nação. Nenhum presidente, absolutamente nenhum, cometeu crime tão grave. Não dá para subestimar a invasão do Capitólio como se fosse produto da ação de um punhado de ridículos supremacistas brancos, alguns vestidos de vikings.

O atentado à democracia pode até ter aspectos de uma opera bufa ou de uma pornochanchada, com Trump tocando harpa enquanto o Capitólio incendiava. Sim, depois de insuflar sua trupe terrorista a se dirigir ao Parlamento, ainda tentou dissimular, aconselhando que eles voltassem atrás. Já era tarde. A democracia americana foi violentada.

As mãos nada invisíveis de Donald Trump estavam lá com as impressões digitais dos seus dez dedos. A insurreição contra o Capitólio seria o corolário de um golpe que o presidente americano vinha tramando desde quando sentiu a reeleição fugir entre os dedos. O golpe naufragou porque, como disse Stephen Levitsky, não teve apoio dos militares. Mas esse era o plano.

Era visível que a serpente tinha saído da casca do ovo desde que veio à luz do dia a gravação com Donald Trump pressionando o Secretário de Estado da Georgia para fraudar a apuração arrumando, de qualquer maneira, cerca de 11 mil votos em seu favor.

Se tivesse dado certo. a marcha sobre o Capitólio estaria para a democracia americana assim como o incêndio do Reichstag esteve para a morte da democracia alemã, nos anos 30.

A grande indagação que fica é: como foi possível prosperar na maior democracia do mundo o trumpismo, com toda sua pregação totalitária e de ódio?

A resposta não é tranquilizadora. Disseminaram-se na sociedade americana valores autoritários, a ponto de 40% da população compartilhar tais valores. Por outro lado, supremacistas brancos e uma extrema direita radical e furibunda saiu do armário com a ascensão do trumpismo. O Partido Republicano, hoje controlado por essa corrente anti-histórica, foi a incubadora onde a serpente chocou o ovo.

Os republicanos, que já deram aos Estados Unidos presidentes como Abraham Lincoln ou Theodore Roosevelt, estão reféns de uma corrente incompatível com a democracia. Enquanto não for banida da vida política, será uma ameaça constante ao ordenamento democrático. Retomar o controle do partido é a grande contribuição que os conservadores com convicções democráticas podem dar à nação.

E o Brasil nessa história toda? O efeito Orloff paira sobre nossas cabeças. Trump é o Bolsonaro de 2022. O script está delineado, os passos são praticamente os mesmos, com o agravante de aqui há uma enorme nuvem cinza sobre as nossas Forças Armadas. A bolsonarização das tropas, para usar a expressão tão a gosto do jornalista Merval Pereira, é visível a olhos nus. A política já adentrou os quartéis, com dia sim e outro também Bolsonaro fazendo discurso político para a tropa.

Não que aqui o golpe seja inevitável, longe disso. Mas isso depende de frear Bolsonaro desde já. Se era importante antes, agora a batalha da eleição do presidente da Câmara passou a ser vital. Derrotar o preposto do presidente passou a ser crucial para a democracia.

A serpente deve ser esmagada antes de sair do ovo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 8/1/2021. 

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