Divagações sobre as tentações do poder

Nesta vida, a pessoa precisa se preparar para o longo prazo. Especialmente se tiver um cargo de destaque, como o de presidente da República. Veja o Evo Morales, na Bolívia. Venceu as eleições, fez um bom governo, foi reeleito. Muito justo. No entanto… terminado o segundo mandato, forçou a barra e conseguiu um terceiro, não previsto em lei. Acabou renunciando, para não ser apeado do cargo. Justíssimo.

Na Venezuela… melhor nem falar.  Nicolás Maduro tem mandato de seis anos, pode ser reeleito infinitamente, e o número dos que deixaram o país chega a 4 milhões.

O que temos no Brasil? Temos Jair Bolsonaro, que não aceita perder as eleições do próximo ano, mesmo que as perca.  Este propósito parece cada vez mais maduro. Não à toa, como se viu nas últimas semanas, afrontou a Constituição, atacou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.  Xingou o presidente deste tribunal com palavrão pesado, como qualquer torcedor de futebol descontente com um juiz de futebol.

Consideremos, no entanto, que a reação dos poderes constituídos, a essas quixotices, consigam enquadrar Bolsonaro em um limite mínimo de civilidade. E, já que estou no terreno do realismo fantástico, digamos que ele alcance o segundo mandato no ano que vem.  O que poderá acontecer, então? Teremos um Bolsonaro compenetrado no trabalho, em seu gabinete – ou longe dele, inaugurando obras, prestigiando formatura de cadetes pelo País, comandando motociatas? Para que, se a Constituição não permite um terceiro mandato?

Se não alcançasse um meio heterodoxo de atropelar a Constituição, poderia conformar-se a tentar um caminho legal. Convencer o Legislativo a votar – e aprovar – mudança constitucional que lhe permitiria concorrer ao terceiro mandato.  Só que… O STF tem se manifestado contra, sempre que a questão foi levantada.

Li no noticiário, como hipótese, que Bolsonaro poderia lançar um de seus filhos à disputa de sua sucessão. O mais provável é que o escolhido fosse Flávio, hoje senador. Mas se Jair tentou emplacar, cheio de entusiasmo, o filho Eduardo como embaixador dos Estados Unidos, e não conseguiu, como alcançaria a Presidência para Flávio?

No entanto, estive ponderando. O habilidoso deputado Ciro Nogueira, que passou de ferrenho opositor de Bolsonaro a seu chefe da Casa Civil, desincompatibilizou-se do cargo. Em seu lugar assumiu a suplente, sua própria mãe. Não seria possível, no caso de Bolsonaro, lançar a atual primeira-dama, sua esposa, como candidata, tendo ele como vice? Entregar-lhe a caneta Bic?

Fico imaginando a expressão do ministro Gilmar Mendes se a hipótese lhe fosse apresentada. Quando presidia o STF, vetou cogitações para se ampliar o mandato de Lula, então presidente em segundo mandato.

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