Civilização ou barbárie

A declaração do filósofo conservador Luís Filipe Pondé, anunciando que poderá votar em Lula, político a quem combateu durante tantos anos, causa um certo espanto, principalmente entre aqueles que não têm a democracia entre os itens de sua cesta básica.

É o tipo de decisão que lembra um pouco o drama contado no livro A Escolha de Sofia. E mais ainda as circunstâncias da aliança da direita com a esquerda contra o nazismo, na II Guerra. Isso numa época em que esquerda era ainda sinônimo de ditadura comunista.

O conservador Winston Churchill e outros líderes democráticos de direita, como Franklin Delano Roosevelt e Charles De Gaule, se uniram aos soviéticos para derrotar o nazifascismo da Alemanha, Itália e Japão. Entenderam que naquele momento essa opção era um risco menor do que o grande perigo que o nazifascismo representava para a humanidade.

O que nem de longe significou nenhum tipo de aprovação ou apoio desses líderes de direita democrática ao comunismo de Stálin.

Pondé também sabe a diferença entre direita e extrema-direita. Por isso pode se preparar para, logo, logo, ser chamado de comunista pelos apaixonados por Bolsonaro. Ele e muitas figuras de centro e de direita, na imprensa, no Congresso e entre as altas patentes militares, todos alarmados com o neofascismo que saiu repentinamente do armário no Brasil, sob a liderança do tosco Bolsonaro.

Graças a muito analfabetismo político, e também à extrema radicalização, integrantes do centro e da direita já estão sendo chamados de “esquerdalha” pelos bolsonaristas mais fanáticos. Não surpreende, porque eles classificam assim até mesmo a principal líder da direita mundial, Angela Merkel, do conservador partido União Democrata-Cristã, da Alemanha. No referencial de direita deles não cabem líderes democráticos.

Temos também uma parte significativa do eleitorado de centro-esquerda que faz oposição tanto a Bolsonaro quanto a PT.

Somados, são milhões de brasileiros mais moderados, à direita e à esquerda, que estão sendo desonestamente classificados hoje como simpáticos ao PT, ou até chamados de comunistas nas redes sociais, por criticarem o amado Mito.

É impossível para um extremista de direita aceitar que alguém possa condenar Bolsonaro e continuar sendo de direita. Ou que a centro-esquerda se oponha igualmente ao comunismo e ao fascismo.

Têm imensa dificuldade de compreender que Bolsonaro é rejeitado não por ser de direita, conservador ou liberal, como tentou se fantasiar, mas sim por ser um extremista defensor de ditadura militar.

Ao contrário da parte mais atrasada da direita brasileira, que sempre flertou com o autoritarismo, no mundo desenvolvido a direita é uma ideologia que convive muito bem com a democracia. Há décadas governa países importantes, como Alemanha, Japão e outros, defendendo incondicionalmente todos os princípios democráticos, o que, do ponto de vista de um bolsonarista, só pode ser coisa de comunista.

Esses fanáticos reconhecem como direita apenas o obscurantismo na área de costumes e a defesa incansável de ditaduras. Desejam fazer a roda da civilização girar para trás, pois consideram os princípios democráticos e as conquistas da civilização como parte de uma conspiração comunista para destruir a família brasileira.

Os radicais seguidores de Bolsonaro, e também aqueles conservadores mais desavisados, não percebem a enorme distância ideológica existente entre a posição de direita democrática de um Pondé e a extrema-direita, que prega diariamente golpe militar, destruição dos outros poderes da República e de todas instituições democráticas, para concentrar o poder nas mãos do seu líder messiânico.

A reação a isso, felizmente, é o aumento do número de direitistas moderados cogitando votar em Lula, por considerarem Bolsonaro um mal muito maior.

Mas tanto a direita quanto a centro-esquerda crítica ao PT procuram mesmo é um candidato viável, que vá para o segundo turno no lugar de Bolsonaro e derrote Lula. Milhões de eleitores não querem ser obrigados a se aliar à esquerda petista.

Ainda está na memória de todos o namoro de Lula com as esquerdas autoritárias de Cuba e do bolivarianismo, regimes que também destroem o sistema democrático assim que tomam o governo e praticam o culto a líderes populistas ditatoriais. Líderes, aliás, não menos inimigos da democracia do que Bolsonaro, que, inclusive, já declarou no passado ser grande admirador do coronel Hugo Chávez,

Porém, como deve bem saber o Pondé, Lula é um esquerdista que nunca foi comunista. Coisa muito complicada para extremistas de direita compreenderem, pois enxergam comunistas até por trás do coronavírus. E têm muita dificuldade para entender conceitos como democracia, ditadura, capitalismo ou comunismo.

Um anticomunista como Pondé com certeza viu muito bem que, em seus dois mandatos, o petista conviveu de maneira razoavelmente pacífica com o sistema capitalista. Apesar de recorrer periodicamente a uma retórica radical, destinada a contentar as alas mais esquerdistas do partido e do eleitorado. Mas em nenhum momento propôs ou ensaiou implantar estatização dos meios de produção, coletivização da agricultura, estatização do sistema bancário ou nacionalização de multinacionais estrangeiras.

É certo que Lula não chega a ser um defensor incondicional e entusiasmado da democracia, mas também nunca ameaçou o sistema democrático tão frontalmente como faz Bolsonaro, de forma reiterada, há mais de 30 anos.

A direita rejeita Lula muito mais por divergências quanto ao modelo econômico defendido por ele, e pelas acusações de corrupção, do que pelo temor de uma forte ameaça à democracia. Nem teme também qualquer risco de que ele venha a conduzir um governo totalmente inoperante, como faz Bolsonaro desde que assumiu. Melhor um governo ruim do que um presidente sobre quem já pesam até suspeitas de deficiência cognitiva.

Bolsonaro não se diferencia ideologicamente da extrema-direita de Mussolini ou de Hitler. Pode não ter inteligência nem cultura suficientes para compreender os princípios do fascismo. Mas, instintivamente, é um protofascista, ansioso por implantar um regime ditatorial no Brasil. Rejeita vigorosamente o sistema democrático, como qualquer conhecido ditador de direita ou de esquerda.

O detalhe curioso é que muitos dos seus admiradores gostariam que ele implantasse no Brasil uma teocracia cristã, em pleno século XXI.

Depois de dois anos observando ataques à democracia e desastres administrativos, as alas mais democráticas da direita, conservadora ou liberal, incluindo muitos militares de alta patente, hoje tendem a aceitar inclusive aliança com moderados de centro-esquerda para livrar o país de Bolsonaro.

O aumento cada vez mais rápido do número dos que percebem a total incompetência de Bolsonaro para governar, constatado pelas pesquisas, já levou Lula a reciclar sua eficiente fantasia de Lulinha Paz e Amor. Tem evitado destilar rancor e procura ocupar o centro político antes que outros o façam.

Em outras circunstâncias, depois do Mensalão, do Petrolão e do populismo econômico praticado no segundo mandato, Lula nunca seria aceito de novo no governo pela direita. Mas no Brasil o inimaginável está sempre logo ali na esquina. E o PT poderá se beneficiar da situação extrema em que se encontra o país, sob o risco de ter Bolsonaro reeleito e destruindo o país.

As pesquisas mostram que não são poucos os direitistas dispostos a deixar de votar nulo e tolerar novamente Lula, rememorando a aliança da direita com a esquerda na II Guerra. É crescente a sensação de que se trata de uma luta entre a civilização e a barbárie, representada por Bolsonaro.

A única maneira de poupar a direita, a centro-direita e parte da centro-esquerda dessa verdadeira sinuca de bico será o surgimento de um candidato viável de terceira via. A questão é que ele somente será viável se for único, se o centro não cair de novo na armadilha de pulverizar os votos da maioria dos eleitores, que rejeitam tanto Lula quanto Bolsonaro.

Maio de 2021

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