A lei? Ora, a lei…

Lendo o noticiário sobre o novo auxílio emergencial do governo, empacotado como um novo Bolsa Família, mas para durar só até dezembro do ano que vem, fiquei numa dúvida atroz. Esse governo faz tanta confusão com as coisas que me ocorreu perguntar para mim mesmo se em janeiro de 2023 ainda vai ter Bolsa Família. Não ouso perguntar isso ao Guedes porque vai me chamar de burro, assim como chamou de burro o astronauta que atende pelo cargo de ministro da Ciência, Tecnologia e não sei mais o quê.

Não gosto de ser chamado de burro. O astronauta parece que gosta ou não se importa, pois nem deu bola e continua sentado na cadeira. O que sugere, no bastidor, que o Guedes está tão por baixo que ninguém mais liga para o que ele diz ou deixa de dizer.

Pois se o velho Bolsa Família de 2003 – criado com a unificação dos programas assistenciais do FHC e turbinado por Lula naquele ano – foi instituído por lei e não pode ser extinto senão por nova lei que o extinga, modifique ou substitua, ufa, o novo tem que ser lei também. Mas, ora, se valer só até dezembro de 2022, como é que fica o velho de 2003 em 2023?

Entenderam a questão? Esse é o pepino que eles precisam desentortar, o abacaxi que precisam descascar. Pois 2022 é ano eleitoral e nada pode ser dado em ano eleitoral se já não era dado no ano anterior. É o que diz a lei eleitoral vigente. É crime de responsabilidade. Punido com a destituição do cargo e cassação dos direitos políticos. Então, tem que manter as aparências do velho Bolsa Família, que já é dado por lei, e no meio do doce colocar a bomba de que o extra a ser pago só vale até dezembro de 2022.

Quer dizer, tem que desligar uma coisa da outra, se não vai tudo pelos ares, o novo junto com o velho. Leis assim são como aquelas mensagens de filmes tipo Missão Impossível de antigamente, em que o coitado do herói tinha cinco segundos para entender tudo, pois no sexto segundo a fita ia fazer buuummm.  Em 2023 o que vamos ouvir? Essa é a minha dúvida atroz e retroz.

Pois se a lei disser que só um pedaço dela vale para 2022, e o outro continua como sempre, teremos uma lei vesga, zarolha e esquizofrênica, com um pé numa canoa e o outro pé na do lado. Vai ser a cara desse governo que não tem plano nenhum, é tudo na base do improviso e das conveniências ou inconveniências das coisas. É inconveniente cortar as despesas supérfluas do orçamento? Claro que é! Quem não gosta de um supérfluo de, digamos, R$  100/200 bilhões? Então vamos fazer de outro jeito. Vamos furar o teto e pendurar a conta nos precatórios. Vamos também mudar a regra temporal da lei do teto e passar o período da inflação de junho do ano anterior para dezembro. Ganhamos seis meses com essa safadeza em cada ano que passou desde a aprovação da emenda do teto.

Estão encomendando ao Congresso mais um Frankenstein casuístico. Mas não se importam, contanto que saia e garanta a “competitividade” do candidato governista, que nessa altura ninguém pode dizer quem será. Um mês atrás eu escrevi por aqui que o presidente vai jogar a toalha e correr da eleição presidencial para a do Senado, que é eleição certa e garantida. Se vai na presidencial e perde, o que é certo como 2 + 2 são 4 mesmo com Auxílio Brasil, ficará sem mandato e será preso. Mas se pega uma cadeira no Senado, se safa.

E quem seria seu substituto na corrida presidencial? O Kid Bananinha? Pode ser. O Mourão? Never! Meu palpite é outro e usa saias. Vai ser a… Damares! Sim, pessoal, a santa pastora Damares. Ela acredita em cada coisa que eu acho que não vai ter medo nenhum de pegar o fenemê do Lula pela frente. E se, por ventura aventurada e desatinada os deuses lhe sorrirem – aqui tudo pode acontecer –, a bomba do Auxílio que estava na mão, o ratinho comeu e vai estourar no colo dela, a Damares tira de letra. Vai dizer que viu o Jair ou Jesus – para ela é o mesmo Messias – no pé da jaca mandando seguir em frente que dias melhores virão. E o povo embevecido se calará.

Não é certeza, mas quem viver, verá.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e visionário.

 

 

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