Tanta história, só no Ponto Chic

Abril de 1969.

Um palhaço triste, como em um quadro. A mesa de um bar, um copo, lá fora a chuva. No Ponto Chic, um bar antigo do Largo do Paissandu, Antonio Francisco da Costa pensa em seu circo, que pegou fogo sexta-feira. Ele não está maquilado, nem com suas roupas folgadas e  coloridas. Se estivesse, seria Rebiam, o alegre palhaço do Circo e Teatro Jóia, do Parque São Domingos. Mas ele está triste. Porque, além de palhaço, é o dono do circo.

Pim-Pim, o anão, bebe mais do que o costume. Ele também pensa no circo incendiado, onde trabalhava. Lembra o fósforo de cor acendido por um menino da platéia, o fogo na lona do circo, o medo das 300 crianças que pararam de aplaudi-lo para gritar e chorar. E diz que também chorou quando as crianças acabaram de sair pela porta de emergência, salvas.

O engolidor de espadas come um sanduiche. É um homem alto, forte, de voz possante. Vinte e cinco anos de profissão, é o único engolidor de espadas do País. Mas também faz mágica, ilusionismo, faquirismo. Engole fogo, espeta alfinetes e facas no corpo, dorme em cama de prego – o que, na sua opinião, todo mundo pode aprender em cinco minutos.

O palhaço Xuxu, à paisana como Reinaldo Bastos, chega e pede um bauru. Faz um bigode com um pedaço de papel riscado a caneta, coloca-o no rosto e já é Carlitos. Conta seu número.

– O meu acompanhante chega com uma bandeja, para me servir um refresco. Põe um babador em mim, pega o refresco e bebe. Enxuga minha boca e vai embora. O público ri muito.

O Sindicato dos Artistas de Circo funcionou durante certo tempo em uma sala do primeiro andar, no prédio onde fica o bar. Em certo momento o contrato do aluguel terminou, e os artistas ficaram sem sede. Escolheram o Ponto Chic para seu encontro semanal, às segundas-feiras.

O Ponto Chic era um cabaré elegante quando foi fundado, em agosto de 1922. Na década de 30, virou bar. Em 1936 um estudante de Direito nascido em Bauru, no interior paulista, pediu um sanduíche, mas escolheu os ingredientes. Logo os fregueses chegavam e pediam um sanduiche igual àquele do moço de Bauru. Até hoje pedem, por todo o País. Mas o legítimo, com rosbife, queixo derretido e outros ingredientes, só no Ponto Chic.

Março de 2020.

Nota do Administrador: O texto acima é de reportagem de Valdir Sanches publicada no Jornal da Tarde em 1969. O próprio Valdir explica isso em mensagem enviada ao administrador deste 50 Anos de Textos:

Caríssimo.

Eis senão quando, vejo no Face algumas pessoas confraternizando no Ponto Chic. Um é Lúcio, outro Gertel, e aparece ainda um elemento de óculos e sem barba, que presumo ser Sérgio. Estão em foto de abril de 1978.
Penso: vou pegar a matéria que fiz em ano anterior, e mandar para eles com a mensagem: Eh, eh, furei vocês. 
Não achei a matéria entre meus guardados! Na busca, entretanto, dei com outra que fiz do bar, um tanto mais antiga. É de 1969 – há meio século! Este fato me ensejou a produção de um texto com momentos do que está na página amarelada do JT.  
A foto publicada no Facebook, na página de Mário Marinho, a que Valdir se refere é esta aqui, de autoria de Kenji Honda:

Nela aparecem, da esquerda para a direita, Regina Lemos e no colo Inês Lemos da Luz, Júlio Moreno e no colo Guille, Elói Gertel, Vera e Mário Marinho e no colo Cássio, e, at last but not at least, este que vos fala, em encadernação mais novinha e esquisitamente imberme.

Havia ainda outros companheiros do Jornal da Tarde no Ponto Chic nessa ocasião, como o Kenji Honda, autor da foto, e o casal Bebel e José Márcio Mendonça, que aparecem na foto abaixo.

Foi uma comemoração alegre, mas o motivo era triste: era a última noite do Ponto Chic original, o do Largo do Paissandu, que fecharia no dia seguinte. Como é assim uma espécie de Fênix, ele renasceria mais tarde no Largo Padre Péricles, na entrada de Perdizes – e, anos mais tarde, no mesmo endereço original, no Centro da cidade, onde está até hoje. (Sérgio Vaz)

 

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