Negócio da China

Janeiro, calor, férias escolares, neta cocu campiano como diz o caipira, então melhor achar alguma coisa pra fazer.

Bora pra praia disputar com os outros milhares de turistas que tiveram a mesma idéia um lugar ao sol e o que resta de alimentos nos supermercados.
No auge da temporada estão escassos e caros.

Já na fila do açougue, pergunto:

– Quanto tá o filé mignon?

– R$ 125,00 o quilo!

– O que é isso, rapá? Você não conhece a música do Moacir Franco falando que filé minhão, champinhão, arroz, feijão, tudo vira bosta? Então como vou pagar isso pra virar aquilo no dia seguinte?

– É porque é mignon de Ternero. É mais caro.

– Tá, moço, sei que seu boizinho é meigo e cheio de ternura, mas não tem aí o velho e bom filé do pai dele?

– Tem não!

– E carne pra moer, qual você tem?

– Alcatra. 50 reais o quilo.

– Brincou! Não tem outra carne?

– Tem na geladeira.

Lá vou eu, seguida pela fila dos indignados que se formou atrás de mim. Olhávamos para aquela geladeira como se estivéssemos admirando uma vitrine de jóias. E cada um pensando numa receita para alimentar a família toda com os dois bifes de contra-filé que custavam 25 reais. Ou o que fazer com a bandeja de carne moída mais barata mas com um aspecto nada animador.

Ao meu lado uma senhora pergunta: você já comeu arroz com carne moída? Respondo: claro, senhora! Arroz, feijão, carne moída e abobrinha refogada. Hummmm. Ela: não! Você frita bem a carne até ficar preta e acrescenta o arroz cru pra cozinhar junto. Naquele momento me veio à mente essa comida numa bacia de alumínio, sendo ferozmente devorada pelo Aspen, o pastor alemão que minha irmã teve um dia.

O povo, já revoltado diante desses preços, começou a mencionar o quanto os chineses estavam passando bem com a nossa picanha, e nós aqui, ó! “Isso é que é negócio da China. Pra eles”.

Desisto da carne e vou pra geladeira de frango. Nada. Nem uma uma asinha para remédio. Já tinham depenado esse compartimento.

Então vamos lá pro setor de hortifruti. Peguei o que tinha pra fazer uma mistureba de legumes, mas logo pensei no tanto de “remedinhos para as plantas” – mais conhecidos como agrotóxicos – que estaríamos consumindo de uma só vez, depois que a nossa ministra da Agricultura liberou geral. Melhor consumir com moderação, então.

Deixo alguns e de lá mesmo ligo pra peixaria.

– Oi, Ivone. Quanto tá o quilo do camarão Sete Barbas?

– Trinta e cinco.

Pensei: não é tão barato assim pra um camarãozinho barbudo, mas posso fazer render. Com uma parte faço um risoto. Com a outra preparo uma bela torta para o jantar. À terceira, misturo um molhinho feito com tomates (pouco, porém. Já viram o preço do tomate?) e jogo sobre a pescada grelhada do almoço de amanhã.

– Então tá, Ivone. Me manda um quilo desses camarões, bem escanhoados, por favor.

Feita a encomenda, começo a me preocupar. E se eles estiverem contaminados com aquele óleo que andou pintando de preto as nossas praias? (Aliá,s que fim deu aquele “derramamento criminoso de óleo venezuelano” nas nossas costas, seu Ricardo Salles?)

E aí eu disse pra mim mesma: pára, Vera! Se continuar assim você vai ter se alimentar de luz. E por um momento achei até que ia conseguir fazer isso sem gastar muito, mas o presidente voltou atrás daquele papo de subsidiar a conta de luz dos templos religiosos bem na hora em que eu estava pensando em abrir um.

Agora vou ter de procurar outra saída. Enquanto isso vou levando (literalmente) sem carne, sem frango, sem legumes, sem frutos do mar…

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 17/1/2020.

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