Não somos doidos, somos judeus

O cheiro a nazi empestava Paris. Era o desembestado ano de 1943 e da mão do poeta Paul Éluard nascera um poema, “Liberdade, escrevo o teu nome”, cuja fragância tricolor fez dele um alvo. Dizia: “Sobre os campos, sobre os horizontes /sobre as asas das aves / sobre os moinhos de sombras, / escrevo o teu nome”. Ele a sua amada, Nusch, passaram à clandestinidade: “Creio que somos forçados a ir uma temporada para o campo”, anunciou com desprendido humor. 

Foram esconder-se em Lozère, no Sul de França. Não propriamente na aldeia, mas num hospital psiquiátrico, o asilo de Saint-Alban-sur-Limagnole. O director, o Dr. Lucien Bonnafé, velho amigo dos surrealistas, tinha uma visão inovadora da psiquiatria, apóstolo da psicoterapia institucional, que ligava o hospital à aldeia. Os internados abriam-se ao exterior, trabalhavam nos jardins do asilo, desenvolviam talentos artísticos. Ao mesmo tempo, Bonnafé acolhia clandestinos, protegendo-os sob a propícia capa da loucura. A Éluard e Nusch deu-lhes outra identidade, Eugène e Marie Grindel, diagnosticando ao poeta uma conveniente nevrose ligeira. Como Éluard, havia clandestinos que enchiam uma ala e a fusão com os loucos legítimos era perfeita. Um dos clandestinos, um médico judeu, inimigo da discrição, passeava-se pelos corredores gritando: “Eu não sou doido, eu sou judeu. Os doidos vão ser perseguidos, mas eu sou judeu.”

Os meses que Éluard viveu no asilo foram gloriosos. Ali, entre alucinados, catatónicos e dementes, Éluard confessa: “Trabalhei como um louco, se posso usar esta forma de falar”. Continua a escrever para a Resistência – os ingleses chegam a lançar de paraquedas papel para que a tipografia clandestina possa funcionar. Impressionado pelos rostos em ruínas dos pacientes, Éluard escreve as “Lembranças da Casa dos Loucos”, em que canta as ondas de amargura daqueles corpos, a face talhada em madeira dessa mulher que oferece aos ratos as carícias do fim da sua velhice.

Eu tinha 16 anos e não estava na poética clandestinidade de Éluard. Mas no meu bairro de Luanda, na Vila Alice, debruçada sobre a Estrada de Catete, havia uma casa de loucos. A tropa portuguesa alojara ali os cacimbados da guerra. Durante um ou dois anos, o meu bando de amigos e eu vínhamos aos sábados ou domingos de manhã conversar com eles. Lembro-me que vínhamos de bicicletas, salvo eu que, num gesto pingarelho contra o elitismo da bicicleta, usava uns heterodoxos patins. Portanto, vinha eu nuns patins antifascistas e os meus saudosos avilos nas bicicletas de alta estirpe e ficávamos do lado de fora da alta barreira de arame a conversar com os loucos da tropa.

Depressa fizemos triunfar as nossas ideias de “psicoterapia institucional”, emulando o então desconhecido Dr. Bonnafé de Éluard: abriram-nos as portas e passámos a ser internos. Descobrimos, claro, um Napoleão e um Jesus Cristo, mas descobrimos sobretudo o prazer das conversas, umas vezes singelas, outras bizarras: muito cacimbo, medo e, em vez das sombras dos moinhos de Éluard, as sombras e os relâmpagos da nossa guerra tropical.

Faltava o passo seguinte: pô-los a trabalhar. Desafiámos os malucos da tropa para um jogo de futebol num pelado improvisado que ficava entre o beco da minha Alberto Correia e o largo Camilo Pessanha. Meio bairro veio comer o pó desse trumuno. Já não me lembro do resultado, mas acho – se o suor, os esfolanços dos joelhos e os abraços contam –, que ganhámos todos. Mesmo as nossas espantadas famílias, que a seguir lhes deram o jantar.

Da Página Negra, texto publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

No alto, Paul Éluard e Nusch, fotografados por Man Ray.

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