Quando o dragão secular foi derrotado

A inflação foi um tormento na vida dos brasileiros desde os tempos do encilhamento de Rui Barbosa, no início da República Velha. Abateu ministros da Fazenda, degolados de seus postos por não conseguirem livrar o país desse pesadelo: nos primeiros 40 anos da República a pasta teve nada menos do que 25 ministros.

Quando o mil-réis foi substituído pelo cruzeiro, em 1942, a inflação duplicou em menos de uma década. Nos anos da correção monetária implantada pelo regime militar, Paulinho da Viola dizia que “dinheiro na mão é vendaval”, criador de ilusões. A insatisfação da sociedade com a brutal perda do seu poder aquisitivo foi imortalizada na voz de Beth Carvalho, na música “Saco de Feijão”, composta em 1977 por Francisco Santana. Sim, os brasileiros deixavam um saco de dinheiro nos supermercados e voltavam para casa apenas com um embrulhinho na mão.

Nos anos 80 a inflação mudava de patamar, em decorrência de duas maxidesvalorizações. Terapias que eram aplicadas matavam o paciente, gerando recessão e desemprego. Mas nada se compara ao período inicial da Nova República quando uma espiral fez explodir os índices de inflação.

A inflação só cairia abruptamente nos primeiros meses de existência do Plano Real que completou 25 anos em primeiro de julho. Ali o dragão centenário foi derrotado.

É preciso relembrar aquele período, para se dar o devido valor ao Plano Real comandado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), então ministro da Fazenda, e por uma equipe de competentes economistas que faziam parte do governo de Itamar Franco. Antes do Real ainda havia quem compartilhasse uma idéia muito presente no nacional-desenvolvimentismo dos anos 50, segundo a qual a inflação gerava crescimento.

Não foi bem assim. A instabilidade da moeda foi uma das grandes responsáveis pela década perdida dos anos 80. Entre o Plano Cruzado e o Plano Real o país teve 11 ministros da Fazenda, todos eles derrotados pela inflação. A estabilidade viria com Pedro Malan, ministro de FHC por oito anos.

A inflação também era um processo moto contínuo. Mas atingia a população de forma distinta. Havia os que tinham capacidade de se proteger e até de lucrar por meio da especulação financeira. Era mais vantajoso especular na ciranda financeira do que investir na produção. Quem podia protegia seu dinheiro investindo no overnight. Alguém com menos de 35 anos sabe hoje o que é overnight?

Já a imensa maioria dos brasileiros sacava seu dinheiro na boca do caixa e ia para o supermercado para disputar uma corrida insana com a famigerada máquina de remarcação de preços. Os preços dos produtos básicos aumentavam na velocidade de um raio. Tudo isso porque os salários eram corrigidos pela inflação passada, enquanto que as despesas pela inflação diária.

Essa lógica perversa foi interrompida pelo Plano Real.  Concretamente significou o maior programa de transferência de renda em favor dos mais pobres ao preservar o poder de compra dos salários.  E pensar que o Partido dos Trabalhadores se opôs ao Plano Real por considerá-lo “neoliberal e eleitoreiro”!

A estabilização da moeda lançou as bases para a modernização da economia, do saneamento do sistema financeiro e para adoção de fundamentos econômicos, entre eles a meta inflacionária, uma conquista que todos os governos pós FHC mantiveram, independentemente de seu matiz político ou ideológico.

Deixou um legado imensurável: a cultura antinflacionária que hoje parece estar enraizada em nosso povo. Pobre do governante que namorar com a inflação e colocar a moeda em risco.

É fácil entender esse compromisso com a estabilidade da moeda. Nos 25 anos de Plano Real tivemos uma inflação de 468%. Não é muito, se cotejados com um dado fornecido pela colunista Miriam Leitão: em apenas 15, de 1979 a 1994, a inflação foi de 13 trilhões e 342 por cento, números digno da Alemanha do início dos anos 30 e da Venezuela de Nicolás Maduro.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 3/7/2019. 

 

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