Patético, despreparado, destilando ódio

Na abertura da Assembléia Geral da ONU, diante dos holofotes do planeta inteiro, Jair Bolsonaro foi Jair Bolsonaro. Uma figura patética, exibindo total e absoluto despreparo, apertando os olhos para ler o teleprompter, comendo pedaços de palavras, errando pronúncias, como notou Vera Magalhães, do Estadão.

Da sua boca só saíram, como sempre, impropriedades. Destilou ódio – a Cuba, a Venezuela, aos países europeus de uma maneira geral, aos que defendem a preservação do meio ambiente, aos índios, ao socialismo. Como diria Caetano, esbravejou contra o inimigo que morreu ontem – ou, mais exatamente, há 30 anos.

Não apresentou uma idéia sequer, um plano, um projeto. O que é absolutamente natural: ele não tem idéias, planos, projetos. Tem ódio e capacidade de desunir pessoas e fazer inimigos.

Reuni aqui cinco análises sobre o discurso public ados nos portais dos grandes jornais. De Jamil Chade, de Vera Magalhães, de Eliane Cantanhêde, de Miriam Leitão e do cientista político Carlos Melo. (Sérgio Vaz)

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“Bolsonaro perdeu sua última oportunidade de ser respeitado!”

Por Jamil Chade, UOL.

Genebra – Jair Bolsonaro não tinha chegado nem sequer à metade de seu discurso e meu WhatAapp, Signal e email já estavam sendo bombardeados por mensagens de diplomatas e representantes de entidades internacionais. Todos chocados com o que estavam ouvindo.

Mas uma das mensagens, particularmente dura, veio de um representante que faz parte da cúpula das Nações Unidas: “Ele (Bolsonaro) acabou de perder a última chance de ser respeitado”. Em outra mensagem, um mediador perguntava: “Há algo mais extremo que essa visão de mundo?”.

Enquanto ele discursava, a câmara oficial da ONU percorria o salão, apenas para registrar rostos fechados, inclusive o da chanceler Angela Merkel.

Depois do vexame do discurso de seis minutos em Davos, em janeiro, de uma participação apagada no G-20 e de ofensas a líderes internacionais, Bolsonaro tinha mais uma chance de mostrar ao mundo que poderia ser moderado e, assim, começar a recuperar seu respeito internacional. Fracassou rotundamente.

Dentro da ONU, não foram poucos os comentários diante de seu discurso. Era esperado do Brasil um sinal de que o país estava pronto a fazer parte do esforço internacional para lidar com desafios globais. Mas Bolsonaro chamou a atenção ao repetir em várias ocasiões as palavras soberania e pátria.

O presidente, sem dúvida, fez questão de reposicionar o Brasil no mundo e na ONU. Mas não da forma que muitos na entidade esperavam.

A ONU, segundo ele, não representa interesses globais. Mas é, sim, um espaço de nações soberanas. “Não estamos aqui para apagar nacionalidades em nome de interesses globais”, disse. E emendou um alerta de que o Brasil não aceitará que haja uma mudança na ONU. Uma forma de dizer: não mexam comigo. No fundo, o que se viu no palco foi um presidente com um discurso ainda mais radicalizado, intolerante e nacionalista que nas demais reuniões internacionais.

Militarismo, Deus, elogios à polícia e ameaças substituíram palavras como sociedade civil, espaço democrático, diversidade, multilateralismo e o sistema internacional. “Acho que nunca começamos nosso trabalho nesse tom”, lamentou uma fonte.

No lugar de se comprometer com metas ambientais, Bolsonaro preferiu partir para o ataque e rejeitou a tese de que a Amazônia seja um patrimônio da humanidade. Sem citar nomes, fez alusão ao “espírito colonialista” da França e preferiu garantir que a Amazônia está “praticamente intocada”, gerando inúmeros comentários.

Fustigou Raoni, acusado de ser usado como “peça de manobra” em uma guerra pela floresta, e manobrou a própria Constituição. “Bolsonaro distorce argumentos sobre autonomia dos povos originários para negar direitos que a própria Constituição garante”, disse Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos. “Categoricamente, anuncia que não promoverá novas demarcações de terras indígenas. É extremamente grave que o presidente tenha usado a Assembleia Geral da ONU como palanque para atacar uma liderança indígena e ameaçar a segurança jurídica das terras ianomâmis e Raposa Serra do Sol, que já estão demarcadas”, afirmou.

Bolsonaro atacou ONGs e a imprensa internacional, proliferou teorias da conspiração e fez um discurso com a forte marca da demagogia de um populista que duvida do poder da democracia.

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Na ONU, Bolsonaro prefere falar aos seus.

Por Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

O discurso de Jair Bolsonaro foi tudo, menos conciliador. Falharam os auxiliares que subsidiaram o presidente de dados e passaram a nós, jornalistas, antecipadamente, a ideia de que o presidente brasileiro tentaria dissipar a imagem ruim que seu governo tem no exterior. Falhamos nós em acreditar que Bolsonaro seria outro que não ele mesmo neste palco global.

Diante do mundo, Bolsonaro preferiu falar aos seus, aos convertidos, e manter sua postura de confronto com tudo e todos os que não pensam como ele, de países a grupos políticos, passando por instituições como a própria ONU.

Foram 31 minutos de bordoadas e caneladas. Em vez de começar falando do Brasil e tentando mostrar o que seu governo fez, abriu a fala com uma cara de Guerra Fria, falando de “agentes cubanos”, do Mais Médicos, da Venezuela e fazendo uma defesa da ditadura militar brasileira. Um pé nos anos 1960, outro nos 1970.

Num tom marcial, em timbre alto e apertando os olhos para ler o teleprompter, Bolsonaro comeu pedaços de palavras, errou pronúncias, afetando o nervosismo com a situação. A postura corporal do presidente foi sempre retesada, na defensiva. Não sorriu uma única vez.

Levou uma líder indígena na delegação brasileira, leu a carta de outra e incluiu o Cacique Raoni entre os inimigos da Pátria, o que deve ter causado perplexidade à plateia, pelo caráter para lá de exótico dessa mistura de paternalismo branco e revanchismo, ao usar um pedaço enorme do discurso para defender sem meias palavras o extrativismo mineral em reservas indígenas.

A defesa da soberania brasileira sobre a Amazônia, que auxiliares pretendiam que fosse feita com razoabilidade e dentro da melhor prática de diplomacia internacional ganhou contornos de bravata ideológica na fala de Bolsonaro, que tretou com a França de novo, acusou a imprensa internacional de promover “sensacionalismo” e não se furtou em apontar interesses escusos na preocupação internacional com a devastação da floresta.

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da Humanidade, e um equívoco, como atestam os cientistas, dizer que a nossa Amazônia é o pulmão do mundo”, esbravejou, para em seguida repudiar o “ambientalismo radical” e o “indigenismo atrasado”, bem como o “colonialismo”, mais um termo saído direto do túnel do tempo.

Bolsonaro foi breve em relação ao comércio global e à abertura do País ao exterior, tema que teve menos destaque que o confronto na área ambiental e a crítica às ditaduras de esquerda como forma de estabelecer o contraponto com a democracia brasileira.

No front interno, o presidente não deixou de fora seus inimigos usuais: o PT e a esquerda e a imprensa, que chegou a dizer que foi em parte “comprada” pelos governos petistas.

O fecho foi a parte mais desbragadamente ideológica da fala: Bolsonaro se pôs a tecer considerações sobre perseguição religiosa –a “cristãos e outros”– e à maneira como, segundo sua narrativa, o tal marxismo cultural tomou escolas, universidades e famílias para capturar as mentes dos jovens e lhes tirar até a mais essencial identidade, a “biológica”, levando a conversa da tal ideologia de gênero, inacreditavelmente, à abertura da Assembleia-Geral da ONU.

Com menções à facada de que foi vítima e ao famoso versículo bíblico que cita a cada fala, Bolsonaro deixou claro que seu público não eram os chefes de Estado, que reagiram a sua fala com aplausos tímidos e esparsos, mas seus convertidos em solo brasileiro. Aqueles que aplaudem cada “mitada” do “capitão” desde a campanha. Para fora, ele tratou de confirmar a caricatura que se faz dele, essa contra a qual pretendia se insurgir.

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Muito ideológico e agressivo, discurso de Bolsonaro é pouco propositivo

Por Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

Mais incisivo na forma e no conteúdo, e em alguns momentos até mais agressivo do que em discursos anteriores, dentro e fora do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro manteve na sua estreia na abertura da Assembleia-Geral da ONU o ponto central da personalidade do seu governo: a ideologia – termo, aliás, citado cinco vezes em vinte minutos.

Ao iniciar o discurso, no ataque e em tom grave, ele disse ao mundo algo bastante questionável entre políticos, juristas, analistas e estudiosos: que o Brasil esteve “à beira do socialismo” com seus antecessores diretos. Esteve mesmo? Quando? E o que caracterizou isso?

A história registrará, e a realidade mostra, que os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff cometeram erros graves e sucessivos, mas nenhum dos dois tentou implantar socialismo nenhum. Até porque sabiam que não havia e não há ambiente e a chance seria próxima de zero.

Além de atacar diretamente Cuba e Venezuela, o presidente brasileiro também mirou na Alemanha e na França. Citou os dois, não seus presidentes, e mandou recados nadas sutis. Exemplo: “um ou outro país, em vez de ajudar (no combate às queimadas), embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista”.

Evaporou-se a expectativa, e até o compromisso assumido por Bolsonaro, de baixar a poeira, reduzir a beligerância. Ao contrário, como registra o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, o presidente “não focou adequadamente as críticas ao meio ambiente e fez o contrário do esperado: ampliou os pontos de atrito no exterior”.

Com tantos dados importantes citados na véspera pelo ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, sobre o combate aos incêndios, Bolsonaro preferiu manter o discurso ideológico, fazer meia dúzia de ácidas críticas à mídia, nacional e internacional, e atribuiu todos os problemas políticos e diplomáticos gerados por desmatamentos e queimadas a uma única fonte: “os ataques sensacionalistas por grande parte da mídia”.

Ele, aliás, foi contraditório. Apesar dos ataques aos governos anteriores, em todas as áreas, admitiu que, enquanto a França e a Alemanha usam mais de 50% de seus territórios para agricultura, o Brasil usa apenas 8% e, com uma exclamação, declarou: “61% do nosso território é preservado!. Faltou dizer graças a quem, ou ao que: aos governantes, às instituições, às ONGs, aos institutos científicos que monitoram a Amazônia e outros biomas.

Além de atirar em seus inimigos e externos e internos, atribuindo a facada da campanha a um “militante de esquerda”, o presidente também atacou o cacique Raoni – “usado como peça de manobra por governos estrangeiros” – e introduziu a sua candidata a líder indígena, a jovem Ysany Kalapalo, da Reserva do Xingu, que quase simultaneamente ao discurso já enfrentava um manifesto crítico a ela de 16 caciques indígenas. Pelo visto, o presidente não só ampliou os pontos de atrito “no exterior”, como disse Rubens Barbosa, mas também internamente.

De positivo destaca-se a forma. Jair Bolsonaro estava firme, bem treinado, manejou sem dificuldade o equipamento transparente e leu sem gaguejar, com voz clara e fluente. Destaque-se também o trecho em que ele refaz seu compromisso com a abertura da economia e a redução do risco para negócios, por meio da desburocratização e da desregulamentação.

Aliás, uma curiosidade: o presidente só citou um único ministro, Sérgio Moro, da Justiça, “um juiz que é símbolo no meu país”. Nenhuma referência, por exemplo, ao outro “superministro” do governo, Paulo Guedes, da Economia, igualmente importante no ambiente internacional.

No frigir dos ovos, Bolsonaro falou principalmente para seu público interno e para os líderes da direita emergente no mundo que concordam com ele, por exemplo, na delicada da questão da “família”. Segundo o presidente brasileiro, “a ideologia se instalou no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas”. Olha aí mais “pontos de atrito”…

Para ele, a ideologia invadiu até “os nossos lares para investir contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família (…), pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica”. Muito ideológico e abstrato, o presidente foi pouco objetivo e propositivo. Exportadores, produtores e diplomatas esperavam muito mais.

Ah! O presidente prometeu paz, democracia, liberdade de expressão, mas os grandes ausentes do discurso foram a pobreza, a miséria, a desigualdade social, ou seja, os mais cruéis males brasileiros.

(Na foto, a chanceler da Alemannha, Angela Merkel, durante o discurso de Jair Bolsonaro.)

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Bolsonaro desperdiça momento e o perdedor é o agronegócio

Por Miriam Leitão, O Globo.

O presidente Jair Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade. Mirou o público interno, seus eleitores, fez um discurso agressivo tomado pelo sentimento da guerra fria, totalmente fora de época, e usou o plenário mais privilegiado que poderia ter para fazer um acerto de contas com uma lista de supostos inimigos.

Aquele ambiente não é para isso. Bolsonaro deveria ter aproveitado para romper o isolamento em que o país está numa questão diplomática central no mundo, que é o combate à emergência climática. Aquele era o fórum para convencer, por exemplo, os membros da União Europeia. O acordo de livre comércio não está garantido, precisa ser ratificado pelos parlamentos de cada país do bloco. Essa era a hora de dar mais garantias, de tranquilizar os parceiros. Era preciso apresentar dados e reforçar o compromisso do Brasil com o meio ambiente. O tom adotado não ajuda na aprovação do acordo lá fora.

Bolsonaro dedicou um tempo enorme atacando o “socialismo”, guerra que não existe no mundo há pelo menos 30 anos, desde a queda do muro de Berlim. Em seguida, um longo tempo foi dedicado a criticar Cuba, uma pequena ilha que não há de ser um adversário de um país continental como o Brasil. Em seguida, críticas à Venezuela. Houve também ataques indiretos à França e acusações frontais às ONGs e à imprensa. Ou seja, o presidente do Brasil se apresentou no principal palco do mundo com uma pessoa cheia de inimigos, ressentimentos, raiva. Na questão indígena Bolsonaro investe contra Raoni, um líder de 89 anos.

Aquele é um ambiente onde a serenidade é bem-vinda e o tempo é usado para lançar pontes nas quais passarão os diplomatas para fazer acordos e parcerias. E apontar princípios que defenderá nas negociações bilaterais.

Seu discurso sobre a Amazônia não ajudou a derrubar a impressão de que está havendo falta de controle no desmatamento. Bolsonaro apenas repetiu o que vem dizendo, sem qualquer evidência e dados. O grande prejudicado com isso é o setor do agronegócio exportador, que precisa que seus clientes internacionais possam ampliar os negócios com o Brasil sem a pressão dos seus mercados consumidores.

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Tergiversação e constrangimento na ONU

Por Carlos Melo*, O Estado de S. Paulo

Coberto de expectativas e incertezas, numa sessão presidida pela Nigéria, o presidente Jair Bolsonaro tomou lugar na tribuna da Assembleia-Geral da ONU. Com muito desgaste, o Brasil ocupou posição central nas atenções do mundo nos últimos meses; o País que sempre teve o que dizer sobre preservação ambiental de repente passou a negar os problemas do clima e transformou-se num dos grandes verdugos do meio ambiente. Esperava-se que o presidente desfizesse esta impressão.

Com efeito, desde a campanha eleitoral, Bolsonaro tem agido de modo no mínimo controverso. Instiga ambientalistas, cientistas, indigenistas, a mídia internacional; de modo arrebatado, nada cauteloso, tem insistido em anunciar um modelo de desenvolvimento que, praticamente, se daria a despeito – ou até ao arrepio – de cuidados com a natureza, indiferente a consequências sociais, políticas, climáticas e ambientais desse tipo de ação. Alheio ao potencial político do tema.

Como assinalou editorial de O Estado, o clima tornou-se uma questão política: “a questão climática é uma das poucas capazes de mobilizar hoje uma juventude crescentemente alheia à política e fechada em suas redes sociais (…) a nenhum governante é permitido ignorar esse fenômeno, que consolida o tema ambiental como o principal tópico político no planeta”. Trata-se do tema internacional de maior sensibilidade política.

A postura assumida no Brasil, no entanto, não reflete posicionamento isolado nem impensado: Bolsonaro e seus aliados mais próximos têm se alinhado a uma visão internacional tão medieval quanto agressiva, que enxerga a China como o grande

inimigo do Ocidente, critica a globalização e, em alguns casos, chega mesmo a negar que a terra seja redonda.

Ao mesmo tempo em que o mundo vivia a expectativa de seu discurso, o Brasil tomava conhecimento do encontro de seu filho, Eduardo, com Steve Bannon – o ex- estrategista de Donald Trump, agitador da direita internacional e hoje persona non grata na Casa Branca. O indicado à embaixada do Brasil em Washington posava ao lado do guru internacional, indicando que a Amazônia é usada por “globalistas” (sic) para atacar o Brasil e o presidente da República.

Com isso tudo, não seria mesmo de esperar um gesto de conciliação; uma mão estendida ao entendimento mundial. De modo que não é de admirar que Bolsonaro tenha subido à tribuna da Assembleia-Geral disposto a dobrar a aposta.

Antes de tudo, seu discurso caminhou pela via da tergiversação e por suas fantasias particulares e de grupo. Martirizando-se como vítima de uma conspiração “de esquerda” que a polícia de seu governo não foi capaz de comprovar, agradeceu por sua vida assumindo o caráter de herói. Depois, afirmou estar disposto a restituir a verdade, a sua verdade. Buscou assim seus espantalhos de costume, favoritos: “o Brasil ressurge depois de estar à beira do socialismo”, disse. Apontou um País em que havia ataques aos valores da família; ao mesmo tempo em que apelou ao perigo comunista, nominando a Venezuela e a Cuba. Voltamos à Guerra Fria, uma esquálida, guerra fria, admita-se.

Em contraposição ao perigo socialista que se delineava, buscou o conforto – desde sempre controverso – do “sucesso” que alardeia de ações econômicas de seu governo, que ainda hoje ostenta índices tenebrosos de desemprego e estagnação econômica; que começa a recolher críticas de inação e falta de projeto. No campo do combate à corrupção, escudou-se na popular figura de Sérgio Moro, ostentando-o como um bibelô, outdoor. Sem revelar que o tem esvaziado, num conflito já quase explícito. Jactou-se do que ainda não fez de modo tão sincero que talvez acredite mesmo que já o tenha feito.

Em relação à Amazônia, de fato, não houve acordo. Não explicou a contrariedade com os dados do Inpe, sua rejeição à comunidade científica e muito menos a chuva de fuligem que cobriu a cidade de São Paulo, há algumas semanas. Pelo contrário, afirmou um “compromisso solene com a Amazônia”, indicando que “somos um dos países que mais protegem o meio ambiente” sem perceber que, por questão lógica, torna-se obrigado a reconhecer o esforço de governos anteriores, posto que o seu tem apenas pouco menos de 9 meses.

Minimizando os problemas, admitiu, sim, a existência de queimadas criminosas, mas causou constrangimento ao afirmar “também praticadas por índios”, preferindo mencioná-los ao invés de reconhecer ação de grileiros e maus agricultores. No mais, tudo seria obra de “ataques sensacionalistas despertados pela mídia internacional” e – sem citar a França – de “um ou outro país” que “de forma desrespeitosa” atenta contra a soberania do País.

Nas entrelinhas, foi um discurso de confrontação à França e à Europa, como também de alinhamento e bajulação a Donald Trump. O qual, aliás, falando logo após o brasileiro, martelou nas mesmas teclas de Bolsonaro: Venezuela, Socialismo e Cuba (eis aqui a conexão com Bannon). Aos olhos do mundo, Bolsonaro emerge como pastiche de Trump.

Voltando à questão indígena, Bolsonaro indicou interesses claros: “O Brasil não aumentará sua área indígena”, lançando os olhos sobre as riquezas das reservas Yanomami e Serra do Sol. Atirou no espantalho das ONGs e revelou aí sua estratégia: dividir o inimigo, desqualificando sua liderança: Raoni “é massa de manobra (…) acabou o monopólio do senhor Raoni (…) a visão de um líder indígena não representa” todos os índios. Comprovou isto lendo carta de “uma comunidade indígena” que hipotecava a ele, Bolsonaro, total apoio.

Ao final, fez lembrar Carlos Alberto Parreira, que após os 7 x1, sacou do bolso a carta de uma tal de “Dona Lúcia”, acrítica e solidária ao técnico Felipão. Por quanto tempo ainda esse sentimento de 7 x 1 acompanhará o Brasil?

* Cientista político e professor do Insper

24/9/2019

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