Meu primeiro revólver

Na Folha: arma custa R$ 3.000. Mas isto é um assalto! Resolvi esperar pelas promoções. Vai que pinte um Black Friday Arma e Bala, com descontos de 50%. 

Não veio, e pensei em ir à loja. Mas… com que cara me apresento ao balcão, se nunca tive nem mesmo um revólver de brinquedo? Imagino a cena. O vendedor: “Esta é de fácil manejo, leve, alta precisão. O senhor quer segurar?”. “Tá louco?”.

Outro problema. Não é mercadoria como as dos camelôs, que não requer prática nem habilidade. Compro a pistola e como vou aprender a manejá-la?

A embalagem diz que tem ação simples e dupla, miras reguláveis, freio a disco, câmbio automático – caramba, estou confundindo tudo. O que salva é que está à venda um competente guia de instruções para iniciantes. Garante a qualquer adulto, ou sua mulher, o manejo seguro da arma. O livreto, diz o vendedor, é caro mas vale a pena. E tem garantia. Se tudo falhar, devolvem o valor pago para a viúva.

Bem, pensei, o que posso fazer é treinar em casa. Compro um alvo, instalo no quintal e mando bala (senti firmeza). Foi o que fiz. O quintal não é pequeno. Tem algumas árvores frutíferas, um quiosque, e, nos fundos, pequena elevação. Foi lá que finquei a base e prendi o alvo.

Os vizinhos deviam estar acompanhando meus movimentos, pois no terceiro tiro chegou a radiopatrulha com a sirene aberta. Em duas horas, o meu e outros cinco quarteirões foram declarados zona de alto risco.

Quer saber? Li no jornal que, em São Paulo, o roubo em casas não chega a três por cento dos ocorridos em outras situações. Dei uma banana para o Bolsonaro, outra para a bancada da bala, outra para os acionistas da fábrica de armas. Joguei o revolver no Tietê e convidei a família para um churrasco no quiosque.

Janeiro de 2019

 

 

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