Festival de desatinos

Esta semana tive uma discussão exaltada com um amigo que defendia que a gente perde muito tempo comentando as besteiras da Damares. Jornalista, intelectual, aguerrido lutador de esquerda quando mais jovem, ele acha que no que importa – a economia – o governo Bolsonaro vai muitíssimo bem.

Berrei com ele como há muito tempo não berrava.

Aos berros, tentei argumentar, entre outros pontos, que

a) não é apenas Damares, mas uma quantidade imensa de idiotas nos Ministérios e em outros postos de comando que não param de falar asneiras, estultices, aberrações;

b) não é apenas que um monte de gente do governo, a começar pelo presidente, fale asneiras, estultices, aberrações – eles fazem, produzem, executam asneiras, estultices, aberrações; felizmente, o Parlamento e o Judiciário têm derrubado várias delas;

c) a economia está melhor do que esteve no período Dilma basicamente pelo trabalho da equipe econômica do governo Temer; foi o governo Temer que tirou o país da recessão e encaminhou a reforma da Previdência;

d) este governo que se diz liberal na economia ainda nem sequer extinguiu a estatal criada para planejar o trem-bala Rio-São Paulo; não privatizou coisa alguma, e até tabelou juros, a coisa mais anti-liberal que pode haver.

Berrei de acordar o quarteirão inteiro – – e quem berra, a gente bem sabe, perde a razão.

Sem qualquer exaltação, com argumentos sólidos, lúcidos, claros, límpidos, o economista Rogério Furquim Werneck veio em meu socorro, em artigo em O Globo desta sexta-feira, 13/12. Ele demonstra que dificilmente os investidores internacionacionais vão querer colocar seu dinheiro em um país que está virando chacota mundo afora. (Como bem ilustra a gozação com a capa da revista Time acima.) (Sérgio Vaz)

Eis o artigo:

Festival de desatinos

Por Rogério Furquim Werneck, O Globo, 13/12/2019

Que efeito uma nomeação desastrosa para a Funarte poderá vir a ter sobre o investimento estrangeiro em projetos de infraestrutura? Tivesse sido feita há um ano, tal indagação teria causado espanto e levantado sérias dúvidas sobre a sanidade de quem teria sido capaz de formular semelhante pergunta.

Passados 12 meses, contudo, é triste constatar que a indagação já não parece tão estapafúrdia assim. Mas quem, em sã consciência, poderia imaginar, no final do ano passado, as proporções dos infindáveis desatinos que agora vêm pautando, não só a gestão da Funarte, como a de muitos outros segmentos importantes do governo federal?

A Fundação Nacional de Artes é um órgão que tem como objetivo fomentar produção, prática, desenvolvimento e difusão das artes no país. Como amplamente divulgado, seu recém-nomeado presidente tem externado ideias ensandecidas sobre amplo leque de questões, nem sempre relacionadas ao campo de atuação da Funarte. Faz apaixonada profissão de fé na ideia de que a Terra é plana. E está convicto de que o rock é um gênero musical que induz ao satanismo.

O caso da Funarte merece atenção porque é emblemático. Não é um fato isolado. É tão somente uma manifestação mais contundente de um problema muito mais geral, que tem dado lugar a ondas recorrentes de declarações despropositadas, feitas por pessoas completamente despreparadas para exercer os cargos nos quais foram investidas, em amplos segmentos da administração pública federal.

Entregue ao auto-engano, boa parte do país tem feito o possível para fechar os olhos para tal problema, agarrando-se a uma racionalização já um tanto surrada: não obstante o quadro inegavelmente desalentador que se vê em grande parte da Esplanada dos Ministérios, o governo conta com ministros competentes nas áreas que de fato importam para a saída da crise, como economia, infraestrutura e agricultura.

A presunção implícita nessa racionalização é que a probabilidade de que o governo tenha sucesso nessas áreas independe completamente do que vier a aprontar nas demais. Ou seja, que, sem incorrer em maiores custos, o governo pode se permitir manter, por quatro anos, um arranjo completamente esquizofrênico, com três ministérios bem tripulados e grande parte do resto da administração federal entregue à insensatez.

Sobram razões para perceber quão infundada é tal presunção. Sem ir mais longe, basta ter em conta que parcela importante do sucesso das políticas conduzidas pelos ministros da Economia, da Infraestrutura e da Agricultura deverá depender de um fator crucial: a manutenção de uma imagem positiva do país no exterior. Em bom português, será fundamental assegurar que o Brasil continue a ser percebido como um país sério.

Disso dependerá o sucesso do programa de privatização contemplado pelo ministro Paulo Guedes, a maciça participação de investidores estrangeiros em projetos de infraestrutura vislumbrada pelo ministro Tarcísio de Freitas e a expansão desimpedida das exportações brasileiras de produtos agropecuários, em um mundo cada vez mais protecionista e atento à preservação do meio ambiente, pela qual se empenha a ministra Tereza Cristina.

Ao entregar a Funarte a um terraplanista confesso, convicto de que o rock induz ao satanismo, e se permitir infindáveis barbaridades análogas em grande parte da administração pública federal, inclusive no próprio Planalto, o governo vem expondo-se ao escárnio internacional.

Aos poucos, a imagem do país no exterior vem sendo dominada por um frenético mosaico de despropósitos vexaminosos perpetrados pelo governo, que empana o que há de positivo a mostrar e torna cada vez mais difícil que o mundo continue a perceber o Brasil como um país que deva ser levado a sério.

A questão é se os segmentos mais lúcidos do governo já perceberam quão graves poderão ser os desdobramentos dessa marcha da insensatez. E se terão condições de conter o avanço das forças do atraso, do obscurantismo e do autoritarismo no Planalto. Fácil não será.

13/12/2019

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