Ermitão urbano

Do que precisa um ermitão para levar uma vida feliz? De um fone de ouvido, claro. O meu caso é um tanto estranho, seguramente desconhecido pela Ciência. Sou um ermitão urbano. Moro em apartamento, em bairro central. No tocante a abastecimento alimentar, rendo-me ao supermercado mais próximo. O problema está na oferta cultural.

Desde há muitos anos, não consigo assimilar a barafunda oferecida pela tevê. Não assisto a novelas, a filmes com qualquer dose de violência (mesmo um simples tiro de revólver na cara), aos de ação, o que, pelos meus cálculos, me priva de pelo menos 80% da oferta. Dos 20% restantes, se tirarmos a demanda para o público infantil, dramalhões e comediazinhas para quem não tem o que fazer, só me resta o noticiário – pesado, nestes tempos bolsonaristas.

Como bom ermitão, me socorro da literatura. No momento, releio A Outra Volta do Parafuso, escrito pelo americano naturalizado inglês Henry James, em 1898.

Ah, sim, o fone de ouvido. Ganhei da minha filha Mônica. Moderníssimo, sem fio. A novidade me estimulou a uma prática a que me dedicava lá uma vez ou outra. Pus o fone e entrei no You Tube. Buscando com mais cuidado, descobri shows memoráveis, ao vivo, de cantores e orquestras que na adolescência eu ouvia em discos apelidados bolachas pretas – com apenas uma gravação de cada lado. Ou, mais tarde, em long-play.

O que apenas ouvia, ouço e vejo agora. Som perfeito. Que tal Frank Sinatra e Ella Fitzgerald apresentando-se juntos? E o memorável baterista Gene Krupa surgindo na orquestra de Benny Goodman para estraçalhar a bateria em “Sing, Sing, Sing”? Em um show memorável, Louis Armstrong teve que repetir quatro vezes o bis de “Hello, Dolly”.

Por aqui, Milton, Chico, Caetano e Gal, mocinhos, cantando ao lado de Mercedes Sosa. E uma infinidade de preciosidades, mesmo o Tom e Elis em “Águas de Março”. Com Milton, o Pietá completo, duas horas de duração.

Então uma voz sussurrou na minha mente: “Vocêê estáá viveendoo no paassaado”. Aceitei imediatamente o estigma. Como o personagem de um filme a que não assistiria, encarei angustiado a parede nua à minha frente. Durou um minuto. Pensei: “Bobagem”. Ora, há não muito tempo Hello. Dolly foi levado em São Paulo e encheu a casa. O Barbeiro de Sevilha lota o Municipal. De que são constituídos os concertos sinfônicos tão amados ainda nos dias de hoje? Beethoven morreu em 1827.

Portanto, esta noite vou colocar o superfone de ouvido. Só do meu trompetista predileto, Chet Baker, há uma variedade de shows ao vivo, e músicas, que eu nem imaginava existir. Já ouço a voz quase sussurrante (também canta): my funny valentine…

Setembro de 2019

 

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