A OCDE fará bem ao Brasil

Recentemente o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, disse em uma palestra na Fiesp que o Brasil está na agenda do passado. Nem concluiu ainda as reformas da Previdência e tributária, enquanto o mundo está em outra estação, em busca de respostas aos desafios da Quarta Revolução Industrial.

Tive oportunidade de constatar isso, ao participar da vigésima edição do Fórum Mundial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE -, realizado em Paris na semana passada com o tema “World in EMotion”.

A idéia dos debates foi combinar as vantagens que a tecnologia nos traz, num mundo em processo de mudança e movimento, onde a emoção e a inteligência humana são cada vez mais essenciais. Nele, a fragmentação e a desigualdade afetam profundamente a vida dos mais pobres, sejam povos ou nações, e colocam na ordem do dia o desafio que a OCDE  se propõe a enfrentar: a construção de um um novo contrato social “que funcione para todos, em equilíbrio entre direitos e responsabilidades, que nos una, ao invés de nos dividir”

É nesse mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo, para usar expressões da própria OCDE em seu Plano Estrutural Educação 2030, que questões cruciais se colocam.  Entre elas, a compatibilização entre valores éticos e os extraordinários ganhos com o advento da Inteligência Artificial.

Por sua natureza, a tecnologia é neutra, mas o homem não.

Computadores e algoritmos não têm alma, não criam valores. Esse poder é do homem, é ele quem tem a responsabilidade de interagir com as novas ferramentas “através de uma lente humanizada”.

O olhar humanista da OCDE serve de balizador para enfrentar os desafios advindos da chamada Revolução 4.0, como o futuro do trabalho em um mundo onde 47% dos atuais postos de trabalho desaparecerão e novas profissões surgirão. Questões como o desenvolvimento sustentável, a superação das desigualdades, de gênero, de raça e de países, bem como da fome, das migrações desordenadas, das drogas, lavagem de dinheiro e crime organizado, exigem cooperação internacional. Será impossível debelar tais mazelas apenas com o esforço local.

Há entre os países membros a consciência de que os atuais problemas da humanidade são também oportunidades: “o mundo está mudando, e essa mudança é uma oportunidade para repensarmos e melhorarmos a sociedade; e a Educação é a chave para isso”. Para os jovens moldarem o seu mundo é necessário associar um forte conteúdo das disciplinas com habilidades socioemocionais, dotando-os de resilência, auto-regulação, empatia, espírito crítico. Afinal, como diz o ex-ministro Rossieli Soares, hoje secretário da Educação em São Paulo, em matéria educacional, a única ideologia pertinente é a da aprendizagem dos alunos.

Na mesma semana em que se realizou o Fórum, os Estados Unidos anunciaram o seu apoio ao ingresso do Brasil na OCDE.  A conquista desse apoio para o restrito clube de 34 países é, até agora, o maior êxito da política externa do governo Jair Bolsonaro. Inegavelmente isso trará benefícios econômicos, culturais, sociais e políticos para o Brasil.

De um lado, nos conectaremos com a agenda do futuro, seremos contemporâneos das questões suscitadas pelo vigésimo fórum da OCDE, das quais participaram governos, iniciativa privada e o terceiro setor. Por outro, teremos de cumprir as 249 regras exigidas pelo clube, que implicam boas práticas de políticas públicas. Elas vão da abertura da economia ao desenvolvimento sustentado, da governança do setor público à redução da pobreza, do combate à corrupção ao aumento de transparência, entre outras.

O Brasil já incorporou 30% dessas regras, estando em situação mais confortável do que a vizinha Argentina, a Romênia, Peru, Bulgária e Croácia, que também são candidatos a membros da organização. Sem sombra de dúvidas, se preenchermos todos os requisitos, a OCDE fará bem ao Brasil em termos econômicos e de valores éticos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 29/5/2019. 

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