Com a bênção de Hemingway

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Não eram de se render. Marlene Dietrich não se rendeu a Hitler, Jean Gabin não se rendeu à pata nazi, na Paris ocupada. Juntou-os a América, que ainda não sabia se ia ou não à guerra. Ou talvez tenha sido um involuntário Hemingway a apresentá-los, num selecto clube de Nova Iorque.

Era uma noite de 1940 ou 41. Bem sei que o preconceito enxameia a alma dos nossos literatos, mas Hemingway pedia a Marlene o que não pediria a nenhum deles, que lhe lesse, em provas, os seus romances, antes de os publicar. Confiava na inteligência dela.

Gabin ia a passar. Marlene sentou-o à mesma mesa de Hemingway e explicou-lhe em francês que, afinidades literárias à parte, entre ela e Hemingway era só um amour platonique. A cara de Gabin não mudou de expressão. Só tinha, aliás, uma expressão e sempre a mesma cara, a cara que um homem devia ter nesses anos de guerra. Ou seja, a cara de um trombalazana. Em todo o caso um trombalazana de uma gentileza nonchalant.

Se Marlene sabia o que era uma bela mulher, muito mais sabia o que era um belo homem e agarrou-se a ele como uma lapa. Prometeu pôr Hollywood a seus pés e propôs-se ensinar-lhe inglês com pronúncia americana. E sabem todos os meus leitores o árduo exercício a que uma língua se entrega para adquirir uma adorável pronúncia.

Ali, à frente da cara macha de Hemingway, a alemã andrógina e o cavador francês refugiaram-se um no outro da expansão nazi. “Acorrento-me a ele, mas também à minha última oportunidade de ser uma verdadeira mulher”, escreveu Marlene ao marido ultramilionário que tudo lhe sustentava. E atirou-se, como o forcado ao touro, ao que de mais francês havia em Gabin.

Ele deixou Hollywood para se juntar à resistência. Foi canhoneiro num barco de guerra, treinou fuzileiros em Argel e avançou, Alemanha dentro, com a divisão Leclerc. Ela não se desacorrentou. Veio à ópera de Argel dar espectáculo a cinco mil soldados americanos e foi dormir com ele na Paris libertada, numa suíte do Plaza Athénéee, que os lugares do amor não são indiferentes ao brilho do amor que se tem.

Separou-os a paz e Hollywood que Gabin odiava. Marlene nunca o esqueceu. Veio morar e morrer em Paris, num apartamento donde podia ver o quarto do Plaza Athénée em que o amara, e comprou um talhão no Pére Lachaise para, ao menos na morte, voltar a dormir a seu lado. Gabin, marinheiro, pediu que o cremassem e deitassem as cinzas ao mar.

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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