As veias abertas da social-democracia

As urnas francesas deixaram expostas as vísceras da social-democracia européia, mergulhada na sua maior crise pós Segunda Guerra Mundial. Por mais de 60 anos, os social-democratas foram hegemônicos no seio da velha classe operária e erigiram-se em poder graças à idéia-força do binômio igualdade-liberdade. Agora, estão sendo desidratados à direita e à esquerda.

A crise não é apenas do velho Partido Socialista de François Mitterrand, reduzido à insignificância pelas urnas, onde obtiveram tão somente 6,4% dos votos. Para se ter idéia do tamanho do tombo: em 2012 François Hollande teve 28,6% no primeiro turno e foi eleito presidente no segundo turno.

À catástrofe francesa, somam-se outras tragédias. O Partido Trabalhista da Holanda simplesmente foi massacrado na eleição realizada em março. Caiu do segundo partido da eleição de 2012 para sétimo lugar neste ano, e obteve apenas 5,7%. Em dezembro de 2015, o Partido Socialista Operário Espanhol viu sua votação decrescer pela metade, em menos de oito anos.

A exceção é Portugal, onde o Partido Socialista constituiu-se em governo. Mas um Portugal só não faz verão. Na Grécia, a social-democracia virou peça decorativa. Na Itália, Espanha e França os socialistas passam por intenso processo de luta interna e mesmo na Escandinávia a extrema direita conquista fatias do eleitorado.

Para completar o quadro, são praticamente zero as chances de o Partido Trabalhista inglês retornar ao poder nas eleições antecipadas para o início de junho. Pesquisas já dão uma frente de 20 pontos à primeira ministra Thereza May, do Partido Conservador.

Neste clima de fim de mundo, a social-democracia européia sofre duplo cerco. De um lado, a antiga classe operária excluída do processo de globalização é capturada pelo discurso xenófobo e protecionista da extrema direita, turbinando, assim, fenômenos como Brexit e Marine Le Pen.

De outro, perde terreno para a velha esquerda que ressurge com cara nova e discurso velho, pregando o isolacionismo e receitas que sempre fracassaram. Na Holanda foi a Esquerda Verde. Na França a Frente Insubmissa, de Mélenchon, teve três vezes mais votos do que o PS. Na Espanha o PSOE tem no seu calcanhar o Podemos.

Para entender as razões de sua crise, a Social Democracia está no divã. Certamente elas estão no esgotamento do fordismo que gerou as bases para o Estado de Bem-Estar Social. A sociedade do pós fordismo fragmentou as antigas classes trabalhadoras, alterou o modo de se produzir e, com ele, as relações sociais, fenômenos que se intensificarão com a 4ª Revolução Industrial.

Essa nova realidade impulsionou movimentos regressistas à esquerda e à direita, e expôs os limites de se promover o Estado de Bem-Estar em uma economia globalizada e internacionalizada, gerando, assim, o grave desafio de se encontrar novas formas para seu financiamento.

A via do endividamento exponencial levou à crise de insolvência da Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda, entre outros. Sem novas fontes de financiamento, o Estado de Bem-Estar Social deixou de ser sustentável.

Para se inserirem na economia internacional, os países governados por partidos social-democratas tiveram de abrir a economia e promover a reforma do Estado.  Fizeram o que Margaret Thatcher fez na Inglaterra. Nesse sentido, pouco se diferenciaram do tatcherismo ou do social-liberalismo. Com a crise da dívida pública da zona do euro, tiveram de adotar novas medidas austeras. Delas não escapou nem mesmo o Syriza, da Grécia. A impopularidade de Hollande decorre em parte da adoção dessas medidas.

Fica a pergunta: a eleição francesa foi o último prego no caixão da social-democracia européia?

É possível que não. Ela pode renascer no rincão onde surgiu há 150 anos. Sim, na Alemanha de Eduard Bernstein, teórico do socialismo evolutivo, e de Willy Brandt, do Partido Social Democrata (SPD), ela dá sinais de vida, contaminada pela “Martimania”.  O fenômeno diz respeito a Martin Schulz, ex-prefeito de uma pequena cidade que vem conquistando corações e mentes dos alemães.

Schultz é o primeiro presidente do SPD eleito por unanimidade desde a Segunda Guerra Mundial e candidato a chanceler nas eleições de setembro. Pesquisas eleitorais já o colocam em situação de empate técnico com a atual primeira ministra Ângela Merkel.  Martin Schultz devolveu ao seu partido o discurso da justiça social e da defesa da igualdade. Entre suas bandeiras está a revisão de excessos da Agenda 2010, medidas austeras adotadas pelo último chanceler do SPD, Gerhard Schröder.

Não se trata do retorno ao figurino do Estado de Bem-Estar Social da era do fordismo e de economias fechadas. Mas sim equacionar a grande utopia do século XXI: crescer mais e melhor, redistribuir mais e melhor. Ser mais eficiente economicamente e, ao mesmo tempo, mais igual socialmente.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 26/4/2017. 

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