Vice-versa

zzzz dorothy

Dorothy Parker escreveu poesia, contos e também muita sátira. Bichos-caretas como eu, que conheçam um terço da história da New Yorker, sabem que ela foi uma das almas, não necessariamente penadas, dessa famosa revista.

Parker era a única mulher a integrar os almoços diários do Algonquin Round Table, círculo literário temido pelo seu humor negro. Um dia, alguém veio dizer que Calvin Coolidge, lento e sorumbático presidente dos EUA, tinha morrido. “Mas como é que eles percebem a diferença?”, perguntou Dorothy com doce candura.

O círculo morreu e ela zarpou para onde se pagava bem a quem escrevia: Hollywood. Passou lá bons anos, turbulentamente casada com o actor (se assim se pode dizer) Alan Campbell, bissexual ao que parece, ainda que, vingando-se da fogosa relação dele com uma mulher casada, Dorothy tenha dito que Campbell “era mais bicha do que um bode”.

Parker escreveu dois ou três filmes que fizeram história. A Star is Born (1937) dar-lhe-ia mesmo o Oscar. Um êxito é um êxito, mas há sempre um antes e um depois. Senão, vejam.

Antes, quando chegou a Hollywood, sentaram-na numa sala do catano, como se ela fosse para aí chairman da PT. Bem sei que Dorothy Parker nunca soube o que é ou foi a PT, mas não é por se ser argumentista em Hollywood que se sabe tudo. Aliás, nessa altura, ninguém queria saber de Dorothy Parker e ali ficou ela, numa sala do catano, sem que, durante três semanas, alguém se dignasse bater-lhe à porta. Dorothy alçou então o bem-humorado rabo da cadeira, e foi até ao WC do estúdio. Arrancou uma das placas e colou-a por cima da sua porta. Quem passasse pela porta do escritório dela, lia agora “MEN”.

Veio o Oscar e houve um depois. Tinha um argumento para escrever e a coisa não lhe saía. Já devia ter terminado e nada. Pediram-lhe com bons modos, uma vez. Com modos assim-assim, pediram-lhe a segunda vez. Um mês de atraso e com os modos com que Costa e Passos Coelho falam um ao outro, assim lhe falou o patrão do estúdio: “Mas porque é que a merda do script não está já em cima da minha secretária, Dorothy?” Ela respondeu em inglês e é no mesmo fidelíssimo inglês que eu repito a resposta: “Because I’ve been too fucking busy – and vice versa.”

Pode ou não haver script, mas sem vice-versa quem é que pode ser feliz?

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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