A invenção do cinema americano

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“Se não podes destruir um monopólio, junta-te a ele: se não te podes juntar a ele, destrói-o.” O lema é de Adolph Zukor, judeu húngaro que chegou à América com 15 anos, órfão e 40 dólares cosidos ao forro de um fato que lhe tinham dito para nunca despir na viagem. Chegou, tirou a roupa e tomou um banho. A banheira tinha água corrente. Não se espantou: “Eu estava preparado para milagres.”

Era 1910, Thomas Edison mandava no cinema da América. Registara patentes de câmaras e projectores e defendia-as a tiro. Só entrava no negócio quem pagasse a licençazinha que ele passava. Foi o que doeu a Zukor, ao meter-se nos filmes. Não lhe custava pedir licença, custava-lhe não ser ele a passá-las.

Zukor era um filósofo: “Ganham-se milhares de dólares a mostrar filmes por três vinténs às classes baixas; não ganharei milhões se conseguir mostrá-los a toda a gente na América?”

Começou por dar respeitabilidade ao cinema, distribuindo na América um filme com a europeia Sarah Bernhardt. A actriz. Chave de ouro, Zukor descobrira os actores e Mary Pickford, por quem a América noivou, foi a maior das suas invenções. Descobriu depois (como Griffith já explicara sem resultado ao monopólio) que os filmes podiam “contar uma história” e que uma história não cabia numa bobina. Os filmes tinham de ser maiores e mais caros. Em quatro anos (1912-16), deu uma coisa má ao monopólio. Contra as patentes de Edison, prevaleceu o factor humano de Zukor.

Admiremos a sua lógica celerada: as audiências controlam as salas; as stars controlam as audiências; eu, Zukor, tenho as stars. De Mary Pickford a Valentino.

Tinha stars e músculo. Em 1919, entrou em guerra pela posse das salas de cinema. Os seus negociadores ficaram conhecidos como o dynamite gang, se é que me faço entender.

Era aberto à mudança. Um filme custava então 50 mil dólares. Chegou-lhe um orçamento de 500 mil para um western, Covered Wagon. Erro, pensou, isto tem um zero a mais. “São mesmo 500 mil”, jurou-lhe o produtor. “Mas não vê que os westerns acabaram? Toda a gente o diz”, respondeu Zukor. “Mr. Zukor, eles não percebem nada. Mas o senhor vai perceber. O filme não vai ser um western, vai ser um épico”, disse o produtor. “Um épico, hã? Isso faz toda a diferença. Avance. Eu trato das vendas.”

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Na foto do alto, Mary Pickford e Zukor, o homem que inventou as actrizes. A mãe vigilante de Mary ao lado.

Na foto logo acima, com Gary Cooper. Não, Zukor não está sentado.

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