Nas asas do anjo

zzmanuel

Que­ria ter asas e voar, mas não é Ícaro nem o Jar­del da can­ção do Rui Veloso quem quer. E ainda assim tive uns aviões na vida. Misturam-se com filmes.

  1. Eu era monan­den­gue, 8 anos, cal­ções colo­ni­ais e sonhos de luxo. Tinha dias em que o meu pra­zer era ir para a varanda do aero­porto de Luanda ver os aviões levan­tar. Apo­calypse Now: a gaso­lina chei­rava-me a pro­gresso e lá longe.
  2. Muito depois, na SIC: já ves­tia um fati­nho Armani, pes­coço enta­lado em gra­vata e cabeça ata­fu­lhada de excel e audi­ên­cias. Apoiá­mos um docu­men­tá­rio da Graça Cas­ta­nheira. Dois monan­den­gues de Maputo, desi­guai­zi­nhos ao meu mim de Luanda, pas­sa­vam os dias no aero­porto a ver aviões levan­tar e ater­rar. Um deles, sonha­dor, expli­cava como era voar: “Eh, o avião sobe, então, e as pes­soa des­maia já, lá den­tro. Via­jam só des­mai­a­das. Acor­das quando o avião aterra.”
  3. Sem os medos da Meg Ryan de French Kiss, a pri­meira vez que voei – ou des­maiei, então – foi num Fri­endship, de Luanda ao Lubango. Des­maiei, sim: íamos no meio das nuvens de algo­dão-doce, uma fenda cha­mada Tun­da­vala aberta na acre mousse de cho­co­late que é a terra angolana.
  4. Tive o meu momento Prin­ci­pe­zi­nho. A janela de um Boeing, onde eu por acaso ia, der­ra­mou uma lágrima a ver o nas­cer do Sol sobre o Saara. O dedo do avião lim­pou a gota que caía, com ver­go­nha que o céu visse.
  5. Tive um momento Bri­tish Airways: voava sobre o Pólo Norte, a doer de branco e tiri­tar de frio lá em baixo. Sen­tado, na cadeira ao lado, o aque­ci­mento glo­bal: era mesmo a Mela­nie Grif­fith, loura, em sos­sego e sono que um Blo­ody Mary embalava.
  6. Na noite tro­pi­cal de Luanda, bruto capa­cete de humi­dade em cima, des­cendo a escada do avião, che­ga­vam as minhas estre­las: pri­meiro o senhor Otto Gló­ria, depois o senhor Coluna, o senhor José Augusto e, logo, os miú­dos Eusé­bio e Simões. E os meus 15 anos na pista, ao lado deles, a ter a cer­teza de que só são estre­las do céu aque­las que podem des­cer à terra.
  7. Como no Empire of the Sun foi um estalo. Estalo do mundo a partir-se. Lembro-me desse meio-dia, e do Mig sovié­tico, por cima do meu bairro de Luanda, a rom­per a bar­reira do som. Um estalo super­só­nico e (uau!) os ouvi­dos a rasgarem-se de infi­nito. Estam­pido no céu, povo a gri­tar em terra: “a vitó­ria é certa.”

 

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

 

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