Dilma, 4.435 dias depois

Depois de dois meses se escondendo de jornalistas, a presidente Dilma Rousseff falou. E até sobre a roubalheira na Petrobras. Suas palavras foram muito além das sandices de que a corrupção na estatal só existe agora porque FHC não apurou e não puniu um funcionário da empresa há 20 anos, ou da velha lengalenga do engavetador-geral da República.

Dilma cumpriu a missão de distribuir recados aos petistas, à base aliada – suplicando para que não derrubem o veto à correção de 6,5% do Imposto de Renda – e, principalmente, às empreiteiras.

Por lei, quem comete ilícitos não pode ser contratado pela administração pública. Dilma gostaria de mudar isso e, claro, sem alterar o conjunto de leis que determina sanções a quem rouba os brasileiros. “Nós iremos tratar as empresas tentando principalmente considerar que é necessário criar emprego e gerar renda no Brasil”, disse ela.

Aproveitou-se da entrevista para emitir um sinal às empreiteiras parceiras de que elas têm apoio para continuar tocando seus negócios na Petrobras e em outros empreendimentos públicos.

A estratégia de alforria foi desenhada há algum tempo, com envolvimento das instâncias jurídicas do governo. Tentou-se, inclusive, convencer a opinião pública de que sem essas mega construtoras seria impossível tocar grandes obras de infraestrutura, tão essenciais ao país.

Besteira. No Brasil e lá fora há centenas de empresas dispostas a trabalhar duro e por preços competitivos. Talvez não tão dispostas às negociatas.

Até Dilma deve saber que será difícil tergiversar em relação à contratação de empresas inidôneas. Como dizer que seu governo quer punir a corrupção “doa a quem doer” e continuar pagando milhões a empreiteiras condenadas, enquanto o cidadão comum que deixa de pagar uma conta de poucos reais entra na lista do nome sujo e não pode mais comprar nada a crédito?

Não há saída. Pelo menos dentro da legalidade não há hipótese de afrouxar a pressão sobre as empreiteiras envolvidas no escândalo. Nem para retirar a suspeição sobre o PT e aliados e a própria presidente Dilma, ex-ministra da Energia e ex-presidente do Conselho da Petrobras quando os episódios mais estarrecedores de superfaturamento e corrupção na estatal ocorreram.

Como não existe explicação objetiva para coisas como as refinarias de Pasadena ou de Abreu e Lima, Dilma repetiu, sem charme algum, as bobagens ditas por Lula na comemoração dos 35 anos do PT. Jogou para a militância, atribuindo a FHC todos os males do Brasil.

Doze anos, um mês e vinte dois dias se passaram desde que Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a faixa presidencial de Fernando Henrique Cardoso. Quase 630 semanas. Tempo mais do que suficiente para Dilma & Cia construirem pelo menos uma desculpa melhor. Nem isso conseguiram.

Algo patético. Absurdo. Mas eles insistem e continuam na mesma toada, 4.435 dias depois.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 22/2/2015. 

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