A cachaça de Dilma e o bourbon de Obama

Em volta de uma garrafa de Velho Barreiro, que ao contrário do que andaram dizendo não era cravejada de diamantes e nem custava mais de 200 mil reais, a presidente Dilma e o presidente Obama deixaram as relações Brasil- Estados Unidos no mesmo banho-maria em que vêm cozinhando nos últimos anos.

O resultado mais concreto da viagem é que a cachaça brasileira deixou de ser um tipo de rum e o bourbon americano deixou de ser um tipo de scotch.

O presidente dos EUA está mais empenhado em se reeleger, e naquele dia andava especialmente distraído por uma corrida de coelhinhos de Páscoa no gramado da Casa Branca, e não parecia querer gastar muito mais energia nas conversas com Dilma.

A presidente recitou o seu mantra internacional preferido, atribuindo aos países desenvolvidos o “tsunami monetário” que afeta nossa saúde econômica e nosso comércio, desvalorizando o dólar, prejudicando a balança comercial.

Ao contrário de Angela Merkel, que deu o troco criticando os juros brasileiros, Obama passou ao largo da descompostura e preferiu continuar com o olhar vago perdido no infinito, talvez pensando no coelho de Páscoa ou em Mitt Romney.

Os presidentes não se olharam nos olhos, notaram os argutos enviados especiais da nossa grande imprensa. Os jornais norte-americanos mal registraram o encontro.

De onde vem, afinal, essa frieza?

Os EUA eram os principais parceiros comerciais do Brasil até pouco tempo atrás; com a emergência da China e seu voraz apetite por commodities, passaram para o segundo lugar, mas continuam parceiros importantes, ainda que sua participação geral no bolo do comércio exterior brasileiro tenha caído de 24% para 12%.

No ano passado, compramos US$ 34 bilhões de dólares e eles compraram US$ 25,8 bilhões do Brasil. Em sete anos, de 2004 a 2011, triplicamos as nossas importações, passando de US$ 11 para 34 bilhões.

O cuidado excessivo que os EUA tinham pela América Latina, que muitas vezes se traduzia em descarada tutela e inconveniente ingerência em nossos negócios internos, (também apelidada de “imperialismo”), típico da segunda metade do século passado, se transformou numa relação diplomaticamente apática.

A emergência econômica e política do Brasil e sua crescente importância no cenário mundial parecem ainda não ter sido captadas pelo radar norte-americano.

De nossa parte, alguns afagos excessivos em regimes claramente hostis a Washington (bola empinada por Lula que a atual presidente, com prudência, desinflou um pouco, ainda que mantendo a oposição às sanções contra o Irã) certamente ajudaram a criar esse clima pouco caloroso.

O comunicado conjunto, monótono e burocrático, assinado pelos dois governos, fala muito em “tomar nota” e muito pouco em “fazer”.

Do encontro Dilma-Obama, acabou ficando a impressão de que há muita coisa mais a ser feita entre Brasil e Estados Unidos em termos de intercâmbio econômico vantajoso para os dois países do que legalizar a cachaça e o bourbon.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 13/4/2012.

 

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