Os lírios do campo

Quem semeia ventos não colhe exatamente lírios do campo.

As redes sociais, no Brasil, se transformaram ultimamente num tipo de lixeira político-ideológica onde todos os dias se lincham em primeiro lugar a verdade, em segundo lugar a razão, em terceiro lugar o respeito da convivência humana e, por último, mas nem por isso menos importante, os resquícios de civilidade que deveriam reger uma sociedade aberta e democrática.

O espetáculo degradante é regido pelas turbas militantes que trocaram os debates sobre conceitos, valores, princípios e convicções numa jihad alucinada, onde o que importa não é convencer o outro mas destruir o inimigo.

A espessa estupidez dos que atribuem intenções racistas a uma frase coloquial e banal como “o ministro caiu do galho”, ou que realmente acreditam que um almoço com um embaixador transforma um jornalista em “espião”, ganha o inacreditável contraponto da estupidez de sinal trocado de pessoas que se regozijam com a doença do ex-presidente Lula como se ela fosse a manifestação de algum tipo de categoria política.

Não existe forma de expressão humana capaz de chocar tanto quanto a manifestação de indiferença- ou pior ainda, de regozijo – de um ser humano diante do sofrimento do outro.

O respeito diante do padecimento dos outros é um traço cultural importante da raça humana e às vezes é o que nos distingue de alguns irracionais.

Desejar o padecimento ou a aniquilação física de qualquer ser humano por razões politicas é uma vileza difícil de conceber. O uso político de uma doença é uma indignidade e uma canalhice que dificilmente encontrariam paralelo no vasto histórico das baixezas humanas.

Ponto e parágrafo.

Se o decoro recomenda a supressão da exploração política da doença, isso vale rigorosamente para os dois lados. Transformar o mau agouro em bandeira política é tão ultrajante quanto tentar mitificar a doença e transformá-la em valor ou estandarte triunfalista.

Reduzir tudo à literalidade das palavras empobrece e estupidifica não apenas o seu significado, encolhendo-o ao maniqueísmo mais raso, mas é capaz mesmo de interditar a validade de um debate como aquele sobre o SUS, que se abriu nas redes sociais a pretexto da doença do ex-presidente.

É evidente que Lula tem o direito de escolher onde, quando e como vai se tratar, pois ele, além do livre-arbítrio, tem as condições econômicas para arcar com o tratamento.

Pedir que o ex-presidente vá se tratar no SUS, é uma evidente figura de linguagem, um sarcasmo usado para ironizar discursos e afirmações que ele fez no passado e que seria melhor que não tivesse feito.

Isso é desrespeito?

Desrespeito não seria falar demais sem medir as consequências?

Desrespeito não seria interditar o direito do cidadão de lembrar que ele não é idiota e que ninguém tem o direito de usá-lo como consumidor passivo de demagogia e mentiras?

Desrespeito seria lembrar que um líder político não tem o direito de dizer que “a saúde no Brasil está a um passo da perfeição” sem um dia ser cobrado por isso?

Essa não é uma boa hora para essas cobranças?

Tanto quanto não é uma boa hora para gravar um vídeo chamando para o próximo comício.

Este artigo foi originalmente publido no Blog do Noblat, em 4/11/2011.

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