Nenhuma canção remou tanto contra a maré

“Motherland” é uma canção maravilhosa, belíssima, apaixonante, emocionante. É uma dessas pérolas raras num mundo de fibra de vidro, para tomar emprestado de Dylan a imagem extraordinária.

É uma dura crítica ao país da compositora, os Estados Unidos da América, o país que se tem, mais do que todos os outros, como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo.

Faz parte da história que todos os países se considerem a si próprios como a coisa mais gloriosa que já existiu no mundo. Uganda, ou o Paraguai, ou Zimbabue, todos eles se consideram a coisa mais gloriosa deste planeta que estamos todos destruindo. Mas, muito provavelmente pelo fato de que nenhum outro Império foi tão rico, e tão poderoso, quanto os Estados Unidos da América, os americanos se consideram o umbigo do mundo de uma forma que parece mais arrogante do que se consideraram, no passado, os mesopotâmios, os gregos, os romanos, os ingleses.

E então uma dura crítica ao Império, feita por uma cidadã do Império, soa como algo no mínimo estranho.

(A mais bela intepretação que achei no YouTube.

A gravação de estúdio.

A gravação de Joan Baez.)

E muito mais ainda quando a canção é lançada logo após o 11 de Setembro de 2001, o dia em que pela primeira vez na História o território americano sofreu um ataque inimigo. Tudo bem: tinha havido antes o ataque a Pearl Harbour, mas o Havaí fica um tanto longe da Motherland.

A primeira vez em que o território continental americano sofreu um ataque inimigo foi naquele 11 de setembro.

As coisas são relativas. Londres sofreu pesados bombardeios nazistas; Moscou havia sido invadida um século e meio antes pelas tropas de Napoleão, e boa parte da Mãe Rússia foi tomada pelas tropas nazistas; Hiroshima e Nagasaki tinham sido destruídas por bombas atômicas americanas em 1945; forças americanas já haviam invadido a Coréia, o Vietnã, a República Dominicana, já haviam dado suporte a golpes de estado pelo mundo afora, incluindo aí o Brasil e depois o Uruguai e o Chile. Mas o território continental americano jamais havia sofrido um ataque, até o 11 de Setembro de 2001.

E Natalie Merchant apresentou sua canção que é uma dura crítica ao país no exato momento em que, atacado, o país se mostrava mais avesso a qualquer crítica, se mostrava firme, fechado em si mesmo, querendo reagir com ferro e fogo contra os inimigos.

Poucas vezes terá havido uma canção remando tão vigorosamente contra o seu tempo do que “Motherland”.

Numa comparação canhestra, boba, cantar “Motherland” nos Estados Unidos pós o 11 de Setembro seria mais ou menos assim como gritar “FHC” num país em que mais de 84% achavam que Lula fazia uma maravilha de governo, e os políticos teoricamente próximos a FHC o negavam mais vezes que Judas negava Cristo.

O crime inominável do anti-patriotismo

Parecia que Natalie Merchant estava sendo aquilo que ninguém perdoa nunca – impatriótica. Impatriótica, traidora de seu próprio país, de sua própria gente, sangue e alma.

Funciona assim, nas cabeças menores, canhestras – e para os políticos espertalhões que se aproveitam desse clima Fla x Flu, o nós contra eles. O país de Natalie Merchant já passou por isso algumas vezes. Nos anos 1920, a direita raivosa jogava a opinião pública contra os imigrantes (eles sempre fazem isso, ao longo de toda a História), e foi nesse contexto que Sacco e Vanzetti foram condenados à morte, embora não houvesse jamais prova material de que eles teriam de fato participado do assalto pelo qual foram acusados. A perseguição denegerada, a caça às bruxas dos anos 1920 reviveu com muito mais força no auge da guerra fria, nos anos 1950, quando a paranóia anticomunista levou à lista negra que proibiu de trabalhar dezenas, centenas de aristas.

É tudo tão repetitivo, tão cansativamente repetitivo, que dá preguiça. Quem se opõe a um governo de direita é tachado imediatamente de comunista; quem se opõe a um governo de esquerda é tido como fascista, reacionário, neoliberal.

São iguais, igualzinhos: detestam oposição.

É uma queixa contra os valores básicos da sociedade americana

“Motherland” não é propriamente uma canção que se opunha ao governo Bush, que, em reação aos ataques do 11 de setembro, inventaria desculpas para invadir o Iraque – embora o Iraque não tivesse nada a ver com os ataques de 11 de setembro.

“Motherland” não é sequer democrata – embora, pelamordedeus, também não seja republicana.

“Motherland” se queixa de que aquele país antes tão belo, tão verde, esteja agora sendo tomado pelo asfalto, pelo concreto, pelos amplos espaços dos estacionamentos junto dos centros de compras.

A queixa de Natalie Merchant que parecia uma simples reclamação contra o asfaltamento de grandes áreas dos Estados Unidos virou, dentro da nova realidade pós 11 de setembro, uma ameaça à segurança nacional.

Até porque, na verdade, a canção é bem mais que isso uma queixa contra o espalhamento dos malls, os centros de compras. Ela finge que é bobinha, específica na coisa do asfalto, e na verdade é muito mais ampla, é gigantesca: a rigor, para quem souber ouvir, ela questiona as bases, os fundamentos, os alicerces da sociedade construída a partir da competição, da briga para ver quem acumula mais dinheiro.

E, assim, de alguma forma, a canção que já era linda virou um hino – para o bem e para o mal.

Para as notas da coletânea que reuniria suas canções entre 1995 e 2005, Natalie Merchant escreveu o seguinte:

“Na manhã de 11 de setembro de 2001, ouvi o som de um avião voando excepcionalmente baixo sobre minha casa, e mencionei para o maquiador como aquilo era pouco usual. Estávamos no Norte do Estado de Nova York, fotografando para a capa do meu novo disco em pastagens, jardins, orquídeas. Era um belo início de um dia de outono. Não estávamos perto de um rádio ou uma TV. Não tínhamos idéia do caos e do horror ao Sul de nós, até que o celular tocou…

“Era uma época difícil para lançar um álbum como Motherland nos meses seguintes ao ataque terrorista. A nação não estava no clima para aquilo que eu antes considerava uma crítica saudável. Eu entendi, mas rapidamente fiquei sufocada por um clima que não permitia que as questões mais profundas e mais difíceis fossem perguntadas abertamente. Eu tinha escrito um disco que continha canções que perguntavam se tínhamos ficado avarentos e colocado nossa riqueza e conforto material acima de tudo. Iríamos envenenar a água que bebemos e o ar que respiramos para sustentar um estilo de vida ao qual havíamos nos acostumado? Iríamos negligenciar nosso lugar privilegiado no mundo entre os países mais ricos e poderosos, e moralmente obrigados a ser mais generosos? Teríamos menosprezado as nossas liberdades? Poderíamos ter esquecido de lembrar nossa própria história?”

***

Levei dias para escrever esta pequena anotação. Como se a beleza de “Motherland” me deixasse com medo. Pedi ajuda a amigos que moram nos Estados Unidos, com medo de errar intepretações – quando em geral me sinto muito à vontade para fazer afirmações firmes a respeito de coisas que não conheço muito bem.

Enquanto relia o texto pela décima-oitava vez, nem sei se inseguro ou se gostando muito dele, e enquanto me ocorria o título “Nenhuma canção remou tanto contra a maré”, me lembrei de Dylan – como sempre.

Quando Bush pai atacou o Iraque, no início dos anos 90 (que tragédia grega perseguirá os Bush que os fazem atacar o Iraque a cada geração?), a indústria fonográfica americana resolveu dar a Bob Dylan uma homenagem daquelas pelo conjunto da obra. Eram os momentos do ataque, os momentos do patriotismo exacerbado; não me lembro dos números, mas o apoio ao ataque insano do Império contra o distante país era algo de fazer Lula ter inveja. Dylan entrou no palco da cerimônia da entrega dos Grammy, não falou uma única palavra, e atacou de “Masters of War”, uma das mais virulentas canções anti-guerra que já foram feitas.

Remar contra a maré. Ter a coragem de ir contra a maré.

O mundo seria muito menor se não tivesse um Bob Dylan, uma Nataltie Merchant.

Motherland

Por Natalie Merchant

Where in hell can you go

Far from the things that you know

Far from the sprawl of concrete

That keeps crawling its way

About 1,000 miles a day?

 

Take one last look behind

Commit this to memory and mind

Don’t miss this wasteland, this terrible place

When you leave

Keep your heart off your sleeve

 

Motherland cradle me

Close my eyes

Lullaby me to sleep

Keep me safe

Lie with me

Stay beside me

Don’t go, don’t you go

 

O, my five & dime queen

Tell me what have you seen?

The lust and the avarice

The bottomless, the cavernous greed

Is that what you see?

 

Motherland cradle me

Close my eyes

Lullaby me to sleep

Keep me safe

Lie with me

Stay beside me

Don’t go

 

It’s your happiness I want most of all

And for that I’d do anything at all, o mercy me!

If you want the best of it or the most of all

If there’s anything I can do at all

 

Now come on shot gun bride

What makes me envy your life?

Faceless, nameless, innocent, blameless and free,

What’s that like to be?

 

Motherland cradle me

Close my eyes

Lullaby me to sleep

Keep me safe

Lie with me

Stay beside me

Don’t go, don’t you go.

***

Não costumo fazer isso, mas aqui vou incluir uma tradução da letra. É uma tradução canhestra, como tudo que faço, mas acho que, neste caso específico, é necessário deixar, para o eventual leitor que não domine o inglês, o que essa moça extraordinária quis dizer.

Lá vai.

Pátria mãe

Onde diabos você pode ir

Longe das coisas que você conhece

Longe do crescimento do concreto

Que continua cavando seu caminho

Cerca de mil milhas por dia?

 

Dê uma última olhada pra trás

Empenhe isso na memória, na mente

Não perca essa vastidão à toa, esse lugar terrível

Quando você for embora

Abra seu curacao.

 

Terra mãe, me embale,

Feche meus olhos,

Me acalante até dormir.

Me guarde,

Se deite comigo,

Fique do meu lado,

Não vá embora.

 

Ah, minha rainha das lojinhas baratas,

Me diga o que você viu.

A luxúria e a avareza,

O incompreensível, a ambição cavernosa –

É isso que você vê?

 

Terra mãe, me embale,

Feche meus olhos,

Me acalante até dormir.

Me guarde,

Se deite comigo,

Fique do meu lado,

Não vá embora.

É a sua alegria que eu quero acima de tudo

E por ela eu faria de tudo, tenha pena de mim.

Se você quiser o melhor ou a maior quantidade de tudo,

Se houver alguma coisa que eu possa fazer.

 

Mas venha cá, minha esposa comprada

O que me faz invejar sua vida?

Sem face, sem nome, inocente, sem acusação e livre

Que tal é ser assim?

 

Terra mãe, me embale,

Feche meus olhos,

Me acalante até dormir.

Me guarde,

Se deite comigo,

Fique do meu lado,

Não vá embora.

Julho de 2011

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