Não sou gado

Quanto mais informação, mais ou menos reflexão? Depende. O que assistimos no dia a dia é, confesso, desanimador. Alguém berra em algum lugar da internet, ou mesmo nos meios convencionais de comunicação, uma bobagem e todos assimilam e repetem como se verdade ou filosofia fosse. A chamada esquerda come e deglute com prazer, como se o jeito americano de viver fosse o máximo, todos os conceitos preconceituosos e infantis daquela sociedade que, antigamente, condenavam. A cultura americana tem, em sua essência, valores que merecem ser cultuados: liberdade, garantias dos cidadãos, democracia. Mas ela derrapa, como sempre derrapou, na afirmação desses princípios. Espalha inutilidades inofensivas, como a coca-cola ou o hambúrguer, e petardos atômicos como o políticamente correto.

Gosto de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. A palavra e o nome são construções culturais edificadas por todos os habitantes de um país. Essa mania falsamente delicada de chamar os que têm pele escura de afrodescendentes é uma esculhambação. Eu, e a maioria dos brasileiros, sou afroíndioeuro descendente. E daí? Eu não chamo ninguém pela cor da pele, não valorizo ninguém pelo sexo ou pela escolha sexual. Mas não direi homoafetivo nem que a vaca tussa.

Quem não vê é cego, quem não ouve é surdo, quem não fala é mudo. Qual a razão para se criar subterfúgios enganadores para a realidade? Não há nenhum preconceito em se empregar o nome usual para os fatos da vida. Preconceito há em quem quer calar o que sempre se disse, em proibir, como se donos da verdade fossem, o que o povo sempre falou.

Quando a internet chegou mais forte, falou-se muito em deletar. Diziam que vinha do inglês, delete. Que nada, era coisa do latim ( “delenda Cartago”) e do português. Deletar é apagar, como indelével é o que não se apaga. Continuo apagando tudo o que me chega pelo computador e não me serve. De uma hora para outra vieram com o tal do “bullying”, em inglês ( logo confiável). Cientistas sociais e terapeutas de toda espécie ditam ( ainda bem que sou contido) regras em todos os canais possíveis. Justificam o crime do rapaz de Realengo. Coitadinho dele. Buliram com ele.

Pois é isso, a palavra e o sentido existem, e sempre existiram em nosso país. É chique e moderno o “bullying”. Mas é antigo e mais verdadeiro o fato de que nas escolas sempre existiu, geração atrás de geração, botar ( ia escrever “por”, mas a reforma ortográfica inteligente não me permite, ninguém entenderia) apelido, mexer, chatear, gozar os colegas. Faz parte da vida, deve ser controlado, mas não justifica nenhuma violência.

Cito Dominguinhos e Gilberto Gil: eu não quero ser “rês desgarrada nessa multidão boiada caminhando a esmo.” Ou quero?

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em maio de 2011.

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