Historinhas de redação (12): o demitido continua trabalhando

Engana-se quem achar que nunca antes na história deste país aconteceu um caso como o desse afável Luiz Antônio Pagot, o diretor do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), que, pego com a boca na botija, foi afastado do cargo mas continuou nele. Primeiro, se disse em férias; e na quinta-feira, dia 7 de julho, embora afastado, ou de férias, andou vistoriando uma estrada nos arredores de Brasília, segundo noticiou O Globo.

O Jornal da Tarde, nos seus áureos tempos, teve o seu Pagot.

Chamava-se David Lindembaum, se a memória não me trai. Era copydesk da Internacional, em 1970, 1971, então editada pelo Doutor Lisboa, Luiz Carlos Lisboa, um gentleman, cavalheiro de trato finíssimo.

Murilo Felisberto, a Rainha, o redator-chefe do jornal, deu ordem ao Doutor Lisboa para demitir David. Não me lembro o motivo; a Rainha deve ter implicado com algum erro dele, e mandou demitir.

Passaram-se alguns dias, e a Rainha percebeu que o David Lindembaum continuava lá na mesa dele, na então pequena redação do quinto andar da Major Quedinho, perto da cabine das telefonistas. Chamou o Doutor Lisboa, cobrou dele a explicação para a presença do demitido dentro da redação. E o Doutor Lisboa, com sua elegância britânica:

– Eu já falei com ele mais de uma vez. Mas cada vez que eu digo que ele está demitido ele me diz: “Quer me irritar é tocar nesse assunto”.

Julho de 2011

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