A Espécie Humana. Capítulo 48

chamei-a de Morte mas acho que me enganei quando a desenhei. é a Vida. seus véus voam de leve e a coroa tem um brilho de lua.

sento-me na cama. sinto-me nu, estou, sim, nu diante da Vida e por isso puxo o cobertor e me cubro. só o rosto… não tenho febre. não tenho medo. vivo dentro de um silêncio sideral. e tenho à minha frente uma figura humana adivinhada apenas pelos véus que a cobrem e coroada com a coroa da existência.

por que veio? assusto-me com minha voz que tem uma estranha ressonância de gruta mágica. por que veio?

você me trouxe.

estou meio doente. acho! por que te trouxe?

para resolver dúvidas!

só existe uma dúvida! só existe um mistério!

sim. só existe um mistério.

só existe um mistério: por que é que tudo existe?, quando podia não existir!

para esse mistério não tenho resposta.

encolhi-me na cama e cobri a cabeça. percebo que ela se senta junto de mim. sua voz é doce como de uma fada.

você veio e sabe que irá um dia. agora ou depois. não sabe por que veio. nem como será.

me encolho mais. não tenho medo nenhum mas me sinto dentro de um tipo de pesadelo, um pesadelo estranho porque cheio de doçura. a voz:

a ameba é de luz!

luz?

fica mais fácil de entender. eu poderia dizer: a ameba é de energia! a ameba é de existência! a palavra ameba é sua. vou traduzi-la: há uma totalidade de existência!

uma só existência?

a existência é uma e está concentrada. imagine, então, que uma porçãozinha, pequeníssima, passa a ter uma individuação. transforma-se em um ser único. que vai existir independente da totalidade, dentro das regras do mundo físico. acontece num ponto fora do mundo, numa fração de segundo fixa do tempo. não é a parcela de luz que resolve se destacar do grande todo. é alguma necessidade do mundo físico que a exige.

e, após a morte, essa centelha de vida se reintegra ao grande todo. terminou? não. porque a individuação não pode mais se dissolver. então, cada ser viverá de sua memória. o resto da eternidade para reviver a vida.

devo estar delirando! mas sinto que o quarto ainda está claro!

reviver a vida por toda a eternidade parece monótono? mas cada segundo da existência anterior poderá ser quebrado em mil, milhões, bilhões, trilhões de fração e nesses sub-átomos de segundo o ser se verá novamente dentro do processo da vida e se lembrará de cada detalhe, é como vivê-lo novamente, eis a eternidade.

não tenho mais coragem de falar. estou suando frio. mas não posso deixar de pensar:

então, quem vive mais tempo terá mais detalhes dos quais se lembrar!

ilusão. o tempo percebido é ilusão. só existe um fato. o mundo exigiu a separação da fração de vida e num determinado momento para lá ela voltará, mas indivíduo daí para sempre.

mas então não há diferença entre sofrer ou ser feliz?

nenhuma. isto são conceitos presos às necessidades da matéria. o que importa é ter do que se lembrar.

e os animais?

para a Vida não há categorias de seres. micróbios, plantas, animais, pessoas. . . onde fulge o brilho da Vida, eis aí a glória de um indivíduo, um ser vivo!

plantas e animais não se lembram!

lembrar é um termo humano. digamos assim: houve uma existência individual, haverá daqui para sempre a percepção absoluta dessa existência dentro da totalidade.

são tantas as formas de vida. . .

quantidade maior ou menor também é um conceito humano.

será uma espécie de Turbilhão.

reina agora um tal de Turbilhão!

sim, lembro-me dessa frase de Aristófanes. reina agora um tal de Turbilhão.

foi você quem pensou isto: uma espécie de ameba gigante, de todos os tamanhos… o universo!

eu quis parar de pensar. estava tranqüilo. mas continuava suando frio. sentei-me novamente na cama. ela estava diante de mim, de pé, flutuando acima do chão. eu, nu diante da Vida e, agora, sem frio e sem medo. pela transfiguração de seus véus, eu percebi que estava para desaparecer. levantei-me e fiquei a olhá-la. começou a esmaecer. de repente, eu gritei:

mas, a ética?, e a ética?

ética? isto é problema de vocês, os vivos. ou convivem em consenso ou… ou…

meu quarto escureceu.

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Para ler o capítulo anterior.

Para ler a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

 

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