A Espécie Humana. Capítulo 42

no café, o menino:

pedi uma história de vida e você contou uma história de morte.

nada disso, mocinho. minha história é de vida.

silêncio. e ele, novamente:

pai, eu e o vô vamos lá em cima que eu vou telefonar pra mãe.

vão com a charrete?

vamos na égua. quer alguma coisa?

vou fazer uma lista, pai.

após o almoço, o menino desce para a cascata com os pequenos amigos. meu pai pega um livro. eu remexo papéis. as crianças sobem antes da hora habitual. o menino entra e os outros se dispersam. ele está cabisbaixo.

hoje desistiram da água mais cedo?

pai, sumiu meu reloginho russo.

como?, sumiu!

eu tirei e botei dentro da camiseta antes de entrar na água. quando voltei, ele tinha sumido.

todo mundo estava junto?

teve uma hora em que alguns de nós subimos pela cascata até a outra chácara.

foram todos?

não. e eu acho que sei quem pegou.

então fique no acho. será que vale a pena tentar saber?

pai, por que as pessoas fazem isto?

ah!, é tão difícil explicar! se é quem eu estou pensando, veja bem a diferença entre a vida que você leva e a vida que ele leva. eles nem têm onde morar direito!

mas se eu for na casa dum menino rico eu não vou tirar nada!

é verdade. vamos imaginar duas crianças. uma tem tudo de que precisa, mora com conforto e conversa sempre com os pais. a outra não tem nada, só roupa velha que alguém dá, os pais não ensinam nada. quando essa segunda criança vê um objeto desejado, ela não pensa, acha que tem o direito de pegá-lo.

então é porque não aprendeu… o quê que ela não aprendeu?

não aprendeu a respeitar o que é do outro. acha que tem o mesmo direito.

silêncio. meu pai deixa o livro e pega um jornal. eu pergunto:

comprou jornal?, pai.

não! este aqui estava na casinha da lenha.

de quando é!

ele procura. já tem dois anos.

dois anos?, pai.

você sabe que isto pra mim não faz diferença.

e o menino:

mas, pai. se a criança acha que tem o mesmo direito, ela vai crescer e continuar roubando. em vez de trabalhar, ela vai roubar.

infelizmente. a necessidade não justifica, mas ela não conseguiu aprender isto.

mas o vovô falou que tem político que rouba. por que rouba?, se não precisa!

percebi que meu pai levantou os olhos e parou de ler o jornal. estava atento todo o tempo, mas nada falou. acho que ele sabia que esta conversa me pertencia, eu saberia dar conta dela.

alguns políticos roubam, né? o que dizer a isto? não foram daquelas crianças a quem tudo faltou. ou teriam sido? você se lembra das crianças criadas por animais? elas não conseguem aprender a se comportar como pessoas normais. conforme o tempo em que ficaram com os animais, não aprendem nem a falar nem a ficar de pé. e, quando o vovô falou destas coisas e eu falei: o ser humano é apenas aquilo que aprende, você perguntou: o que é que a gente tem que aprender? e eu falei que temos que aprender que a outra pessoa é tão importante quanto nós.

isto é difícil de explicar? é! se você fosse sozinho no mundo, tudo que existisse seria seu! mas se aparecesse outra criança, ela ia pensar a mesma coisa: tudo o que existe é meu. então, quando os dois se encontrassem, estaria criado um problema. está entendendo?

estou. um diz tudo é meu e o outro diz tudo é meu.

certo! e o que cada um tem que aprender? isto: eu sou eu mas ele também é alguém. ah!, poucas pessoas já aprenderam essa lição. quem aprende deixa de ser criança, vira adulto.

então os políticos que roubam são como crianças?

num certo sentido, sim.

meu pai abaixou o jornal e sorriu.

são como crianças que têm tudo e querem mais?

são.

silêncio.

quase como se tivessem sido criados por bichos?

nem sempre. eles é que se transformam em bichos.

que safados! né?, vovô!

grandes filhos-da-puta!

pai!

o menino riu. o que é que tem?, pai. são safados e grandes filhos-da-puta!

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Para ler o capítulo anterior.

Para ler a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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