Viva Zapatero

Um documentário italiano de uma hora e meia distraidamente captado numa sonolenta sessão das 10 do Telecine Cult se transformou, para minha surpresa, numa verdadeira, avassaladora e magistral aula de ciência política contemporânea que ninguém deveria perder. A história que o filme conta é italiana, mas a sua lição é universal: políticos e liberdade de expressão não são farinhas do mesmo saco.

O filme, Viva Zapatero (que pode ser comprado por R$ 29,60 na Livraria Cultura, por exemplo), é de 2005, foi exibido no Festival de Veneza daquele ano, e é dirigido pela comediante italiana Sabina Guzzanti, ironicamente filha de um senador de direita (“Tenho idade para não ter mais que obedecer a meu pai”, responde a outro parlamentar direitista de quem tenta arrancar uma entrevista).

A história é simples: durante o segundo governo Berlusconi, em 2004, Sabina estreou um programa satírico na RAI-3, um dos quatro canais públicos que o Estado italiano mantém. O programa, chamado “RAIot”,onde a própria Sabina, travestida, interpretava Berlusconi, foi ao ar apenas uma vez e suprimido em seguida. No filme, ela vai atrás das razões da proibição e constrói, através de depoimentos à esquerda, à direita e nos meios artísticos e jornalísticos, um retrato assustador do que a prepotência da direita no poder, aliada à omissão covarde da oposição de esquerda, é capaz de fazer para sepultar a liberdade de expressão num país teoricamente democrático como a Itália. Nem mesmo quando a Justiça absolve o programa nos processos que lhe foram movidos pelo império Berlusconi, certificando que tudo o que foi dito lá era verdade, Sabina conseguiu que ele fosse recolocado no ar.

Pode parecer simplesmente uma denúncia dos métodos gangsterísticos de Berlusconi (que está em seu terceiro período de governo), mas essa é uma leitura rasa do filme. Na Itália,os quatro canais públicos da RAI são tradicionalmente loteados entre os partidos políticos, e a esquerda tem o seu quinhão – o canal que cabe á esquerda é dirigido por alguém que ela indica, mas que sai de uma lista tríplice enviada ao Parlamento, que aprova o nome final. Ou seja: o diretor do canal que cabe à esquerda tem que ser apoiado pela maioria (atualmente) de direita. Isso cria uma rede de interesses paralelos e de subterfúgios entrecruzados que fazem com que direita e esquerda acabem enrolando a língua de maneira muito semelhante quando se trata de justificar as agressões à liberdade de expressão. E aí percebemos o quanto a novilíngua dos políticos, especialmente elaborada para falar muito sem dizer nada, é semelhante em todos os lugares do mundo, e em quanto a falta de norte ético faz com que as coisas se pareçam quando se trata apenas de manter o poder e seus privilégios.

Um dos grandes depoimentos do filme é de Fúrio Colombo, diretor do jornal do ex-Partido Comunista Italiano, L’Unitá, demitido, como tantos outros, na crista da onda da razzia ideológica da direita, com a covarde complacência e conivência da esquerda: “Minha família tinha o hábito de colecionar e encadernar jornais. Eu tinha o hábito de folhear as coleções, e aí estava tudo que era preciso ver, quando o estado fascista foi implantado. A cada edição do jornal ele ia ficando mais fascista. Isso era visível, óbvio, evidente. Bastava ler as matérias e acompanhar a seqüência dos dias. O fascismo ia se instalando aos poucos, a liberdade ia sumindo aos poucos”.

Ah, sim, por que Viva Zapatero? Um ex-diretor do Corriere della Sera, também expurgado, conta, com um fio de esperança, que assim que assumiu o cargo de primeiro-ministro da Espanha, Zapatero apresentou uma lei proibindo o governo de nomear a direção da TV pública da Espanha. Os italianos babaram de inveja.

Além de ser uma aula de ciência política nua e crua, o filme dá também lições de jornalismo àqueles que, como diria Millôr Fernandes, o confundem com um armazém de secos e molhados.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

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