Uma noite no Teatro Marília

As luzes se acendem, os músicos já ocupam seus lugares e a mulher de corpo frágil, diante do microfone, em pé no centro do palco, começa a cantar. Para mim, que tenho pouco mais de 20 anos e já ouvira algumas histórias da vida da diva, ela me pareceu ter muitos e muitos anos mais do que eu. Só tempos depois vim a saber que ela tinha pouco mais de 50. À margem da vida, sem amparo ou guarida, como dizia a canção de Ary Barroso, talvez ela se sentisse infeliz, uma folha morta. Mas quando sua voz saía da garganta em direção da platéia e do mundo, que força, meu Deus, que energia, que som cortante, profundo.

No escuro, completamente dominado por aquela energia vinda da pequena grande mulher, eu e o público daquela noite mineira estávamos hipnotizados. A poucos metros de distância, Ronaldo Brandão parecia que ia voar. A maioria dos presentes poderia ser meu pai ou mãe. A turma de minha geração não estava lá e nunca saberá o que perdeu. A cada canção brasileira que ela cantava e a cada verso que eu reconhecia na memória de minha formação radiofônica – era uma alegria inesperada. Cantei baixinho o que sabia e me entreguei ao que era novidade.

Não sei se foi em 1971, creio que foi, ou um pouco antes. Mas a debilidade dela, seus parcos movimentos, contrastavam com o fogo que ela acendia em todos nós. Eu sabia muito pouco de sua trajetória, no máximo tinha ouvido falar de sua briga com o marido compositor e parceiro de música. Mas o auge dessa história se passou antes que eu nascesse ou na minha primeira infância.

Eu estava ali, quadro em branco para receber seu talento e sensibilidade.  Confesso que aproveitei até a última gota, a última nota, o que meus ouvidos recebiam.        

E me impressionou a dignidade da artista abrindo a voz e o coração para o público do teatro . Não era um espetáculo – algo que suas condições físicas e seu repertório não admitiam. Era um recital para se guardar.

Vendo na televisão alguns dos capítulos do romance que fizeram de sua vida, ouvi uma canção que conhecia na voz de Nelson Gonçalves. Sempre cantei, menino ainda, sem saber quem era o autor. As emissoras de rádio nem sempre dão o crédito aos compositores. Fiquei sabendo que é uma canção de Herivelto Martins e David Nasser, “Pensando em ti”. Essa descoberta confirmou para mim o talento indiscutível do autor de “Ave Maria no Morro”.

A lembrança da noite em que vi e ouvi, fascinado, a apresentação de Dalva de Oliveira em Belo Horizonte me trouxe um misto de tristeza e alegria. Por um lado, a existência de glória e infelicidade que a marcou, “seu amor quase tragédia”. De outro, a cantora que gravou com talento seu nome na história de nossa música: a estrela Dalva.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

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