Pior, impossível

Toda campanha eleitoral desperta paixões, gera futricas, intrigas e comportamentos irracionais que não raro se assemelham ao fundamentalismo xiita. Até aí, tudo bem.

Sempre foi assim, com maior ou menor grau de contundência das partes e de suas torcidas. Mas nunca antes neste país se viu uma campanha como esta. Desta vez, vale tudo. E, assim sendo, o país, suas instituições, sua Constituição e suas leis de nada valem.

Em apenas 10 dias de campanha oficial – sem contar, portanto, os crimes já cometidos até o dia 6 de julho –os abusos se multiplicaram com requinte e velocidade inimaginável.

O volume e a natureza das imoralidades são de tal tamanho que assustam: confirmação de quebra de sigilo fiscal de adversários, cartilhas pró-Dilma feitas com recursos públicos e fartamente distribuídas, e até uma Kombi a serviço da Prefeitura do Rio carregando material de campanha do PT, flagrada no dia do primeiro grande comício da candidata Dilma Rousseff, na Cinelândia.

Isso sem falar do hors-concours presidente Lula, líder absoluto do ranking não só quantitativo, mas também qualitativo das contravenções eleitorais.

Como não bastasse, Lula ainda faz chacota de suas punições.

Deu de ombros para as seis multas que já lhe foram cravadas e demonstrou que pouco se importa com a que virá pela citação que fez de sua pupila no evento de lançamento do edital do trem-bala. Tanto que voltou a propagandear o nome de Dilma ao fingir estar se desculpando da menção do dia anterior. E o fez, sem qualquer pudor ou rubor, na presença do presidente do TSE, Ricardo Lewandowski. Este também não mudou a expressão nem a cor da face.

Na sexta-feira, no palanque de campanha do Rio, Lula voltou a falar do episódio. Dessa vez, criticando, sem citar o nome, a procuradora eleitoral Sandra Cureau, responsável por vários dos processos contra o presidente. Como era de se esperar, Lula alimentou o tom de conspiração contra ele: “Há uma premeditação para me tirarem da campanha para impedir que eu ajude a Dilma.”

E continuou a abusar da desfaçatez. “Querem me inibir para que eu finja que não conheço Dilma”, como se o problema fosse o fato de ele conhecer a ex-ministra e não o de infringir as leis. “Até botaram uma procuradora no meio para fingir que eu não a conheço”, como se procurador fosse um cargo de livre nomeação e, ainda por cima, escolhido por opositores.

As situações criadas por Lula são tão intencionalmente provocativas que parecem nos indicar que ele alimenta um prazer especial em desafiar as instituições. Do alto de sua estupenda popularidade, age certo de que ninguém terá coragem de desafiá-lo. E se alguém o fizer, ainda que em nome de se cumprir a lei, essa será uma ação golpista, como ele já antecipou no primeiro comício oficial. Na verdade, quer fazer crer que será uma premeditação para impedir não a ajuda, mas a eleição de Dilma.

Em defesa do presidente, o coordenador de comunicação da campanha de Dilma e vice-presidente do PT, deputado Rui Falcão, disse que o governador de São Paulo, Alberto Goldman também desrespeitou a lei ao citar o candidato José Serra em vários discursos. Ora, se assim o é, que ambos sejam punidos – Lula e Goldman.

O que não dá é buscar a impunidade com a mesma lengalenga do todo mundo faz. Muito menos tentar, mais uma vez, coletivizar o crime e culpar a lei. Se a lei é ruim, os nobres parlamentares que a mudem. Mas até que se cocem é obrigatório respeitá-la

18/7/2010.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

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