Palavra, parábola

Há sempre uma vontade louca de dizer para as pessoas que amamos que nós as amamos. E costuma haver um silêncio, uma timidez, que nos impede de expressar o que é necessário. Pois há momentos em que um olhar, um sorriso ou um abraço bastam para que o interlocutor nos entenda. Esses são essenciais, mas, em muitos casos, quando palavras não são pronunciadas, a comunicação não existe. E os sentimentos pescam o vazio e a tristeza, a melancolia nos invade. Saber dialogar no momento preciso é um aprendizado que alguns adquirem intuitivamente e outros precisam de muita estrada para apreender e praticar. 

Eu gostaria de resolver os problemas do mundo. Incapaz de tal proeza, ficaria contente de ajudar os que me cercam, os de onde eu vim e os que de mim vieram. E os amigos que me rodeiam. Eu não sou a linha, sou só um trecho do novelo. Ao contrário, porém, da lã e do linho, sou humano (penso e sinto, logo existo), o que me possibilita ser sujeito e não um simples objeto nessa aventura. Além do mais sou um pouco insaciável.

Quero que meus vizinhos de rua, bairro e cidade sejam felizes. Gostaria que o país e o mundo fossem melhores. Para isso, evidente, os brasileiros e os habitantes do planeta precisariam dar uma força, em termos de caráter, educação, moral e civilidade.

Vivemos numa Babel, mas é bom lembrar que se as palavras são diferentes nas várias línguas, e isso torna um tormento a comunicação global, a cada vocábulo de um idioma corresponde um outro de outro povo. Sinal de que o que uns conversam desse lado do mundo, lá do outro lado os outros também falam. Se a tradução é possível, fica claro que se fala de coisas iguais.

É o mesmo nascer e o mesmo morrer, o mesmo respirar e amar. O prazer no amor é universal. O carinho com a mulher, ou o homem, com os filhos e netos, isso não é exclusivo de nenhum povo. O som da música do coração e dos tambores, aquele arrepio que se tem diante de alguém que se ama, aquelas idéias herdadas de quem nos precedeu, a força de construir que faz a casa das famílias, o respirar o mesmo ar, o mesmo mundo: somos iguais na vida e em qualquer lugar em que vivamos. Somos frutos de uma só humanidade.

A história do menino, dos pais e dos animais na estrebaria é mais que uma boa narrativa. Se o poder divino está ali, cercado de seres simples, e sua grandeza não ofusca nem é ofuscada, eu rio dos que se acham poderosos, dos que não sabem ter uma conversa honesta num fim de noite na beira do fogão à lenha, dos que se acham maior do que seu orgulho e sua empáfia. Os pequenos e medíocres senhores de um poder provisório e ridículo. Repito o que já disse: o poder não tem o poder de esconder eternamente a verdade.

Esqueço esses e abro meu peito e minhas palavras para quem merece.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas  

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