Os órfãos e os roedores do Estado

Existe gente que, diante de qualquer problema, clama pela bênção do Estado ou do governo do momento. Muitas são as tarefas que o poder, representante dos eleitores e cidadãos, arrecadador voraz de impostos, deve assumir.

Mas existe uma montanha de assuntos que o cidadão livre, por si ou com os seus vizinhos e familiares, deve fazer por conta própria. A política, no melhor dos sentidos, deve passar por aí. A maioria das situações dentro de uma cidade ou país se resolveria se houvesse mais cidadania, solidariedade, civilidade.

Tudo é culpa ou bondade do governo. Sobrou dinheiro no fim do mês? Ó, como é bom meu Presidente. Estou cheio de dívidas nas lojas e no cartão de crédito?, malditos esses políticos. Ora, na origem, o Estado foi criado para trabalhar pelo bem estar da comunidade, o que significaria hoje garantir saúde, educação, segurança e habitação para a maioria e, se possível, para todos.

Gosto muito de um livro dos tempos da ditadura, do Claudius, do Fortuna e do Jaguar: “Hay gobierno? Soy contra.” E dessa frase síntese do Millôr Fernandes: “ imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e molhados.”

Acrescento um pensamento meu: é doloroso assistir à despolitização a que o país está sendo levado. Isso, na história da História, sempre aconteceu no mundo e em todos os lugares. Mas me assusta assistir, no meu tempo e no meu lugar, a essa trama diabólica de impedir o debate claro sobre o que o país realmente é e o que se pretende fazer para que o seu destino feliz se realize.

As delícias do poder devem ser muito boas, para quem as quer e cultiva. Eu, que já escrevi, muitos anos atrás, que meu dever é recusar o poder – seja em casa, na rua, na cidade ou no país –, continuo fiel ao que aprendi e fui lapidando, ao longo da vida, no convívio com as pessoas, nas leituras, na experiência. Cargo público, para mim, não vale nada. O valor que pode existir é no servir. Mas isso, dizem, é conversa mole para boi dormir. O que conta é o aprisionamento dos cargos, salários e benesses, para benefício próprio e dos seus. E o pior é que os funcionários públicos, a maioria, têm muito trabalho e pouco reconhecimento.

Os órfãos do Estado são infelizes manipulados pela demagogia, omissos. Já os roedores no Poder são rápidos, famintos, devastadores. Se um dia pensaram no bem comum, há muito se esqueceram. Roem roem roem. E são de múltiplas colorações partidárias.

Vamos assistir da arquibancada a esse espetáculo trágico ou vamos reagir? Está na hora de melhorarmos o jogo que vai ser jogado no campeonato brasileiro da política de 2010. Outubro e as eleições vêm aí.

Julho de 2010.

Este artigo foi originalmente publicado no Estado de Minas.

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