Os dois irmãos

De vez em quando, aqui e ali, perguntam a um escritor quando e como ele costuma escrever.

Cedinho, mal rompe a manhã? De madrugada, o mundo inteiro dormindo?

Trancado no escritório, solidão, ou solto sabe Deus onde, confusão?

Computador, caneta? Lápis?

Rádio ligado, tevê?  Silêncio?

Indagadora por natureza, nunca pertenci à tribo dos que possuem respostas. Indago – talvez inconscientemente – até em títulos de livros. Uns três ou quatro deles, perambulando por aí, numa conversa fiada sem fim, possuem títulos terminados em pontos de interrogação. Confesso que são meus preferidos. Se posso perguntar, por que responder?

Ainda que não me perguntem – nem hoje, nem amanhã, nem nunca mais –, preciso dizer que escrever, pra mim, nunca foi tarefa fácil. Penso, repenso, vou, volto, escrevo, apago, leio, releio, sofro.

Ainda que não me perguntem, preciso dizer que a tarefa difícil, quase dolorosa, enquanto durava – e, às vezes, durava horas quase eternas -, me fazia feliz e infeliz.

Infeliz, pelo texto que insistia em fugir, e feliz, – quase completamente feliz – pelas vozes caipiras que, de música em música, “Vaca Estrela, Boi Fubá”, “Viola Quebrada”, me levavam de volta às origens rurais, matutando pela estrada, “pois era ali nosso ninho, tão longe desse lugar”.

Anos sem fim, quase eternidade, Pena Branca e Xavantinho embalaram meus rascunhos, tentativas de beleza. Assim que vejo o ato de escrever, “que me dá desassossego, que me suga que nem morcego”. Tentativas de beleza. Frequentemente frustradas, insistentemente perseguidas.

Há onze anos, cedo ainda, quando o irmão mais novo, Xavantinho, apressado, pegou o violão e sumiu entre as nuvens, as letras – as minhas, das minhas palavras – tristes, acompanharam seu vôo.

Tristes, Pena Branca e eu silenciamos, solidários.

Solidários, Rolando Boldrin e Antônio Nóbrega, vozes enraizadas em outros cantos e recantos, passaram a decifrar meus rascunhos, madrugadas adentro.

Enfim, como “a gente sempre se consola” – o Pequeno Príncipe ensina isso ao mundo há 50 anos -, aos poucos, eles foram voltando, os dois irmãos.

Com o tempo, o mais velho começou a cantar sozinho. Acontece. Músicas novas, discos novos, prêmios, acontece.

Sempre soube e senti que continuavam cantando juntos. Uma das vozes, fiel, aprendeu a descer das nuvens, eu sabia e sentia.

Neste fevereiro de 2010, não sei se meu coração voltará a pedir socorro ao Boldrin, ou ao Nóbrega. Ou a meus ídolos permanentes, Paulinho, o da Viola, Chico, o Buarque, Lupicínio.

Pode ser. Talvez eu lhes pergunte se notas musicais viajantes e vozes queridas silenciadas são capazes de embalar um texto impregnado de saudade.

Fevereiro de 2010. Esta crônica foi publicada originalmente no site primeiroprograma.

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